Inovação no Oeste do Pará: precisamos construir comunidades que gerem negócios

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Por Daniel Nunes

Quando falamos em fortalecer a inovação em Santarém e no Oeste do Pará, logo aparecem algumas propostas: criar um espaço, realizar um evento, lançar um programa, buscar um edital.

Todas podem contribuir. Mas tenho uma preocupação: o que acontece depois?

Depois que o evento termina, quem continua conversando? Depois que o empreendedor apresenta sua ideia, quem o ajuda a encontrar um cliente? Depois que inauguramos um espaço, o que faz as pessoas voltarem?

Para mim, essas perguntas ajudam a entender um desafio central da nossa região: transformar iniciativas de inovação em relações duradouras e oportunidades concretas.

O valor está nas relações que conseguimos construir

O título de um artigo de Danilo Picucci me provocou uma reflexão: “O que uma aceleradora vende não é dinheiro. É comunidade”.

Olho para essa ideia a partir da nossa realidade. Um empreendedor precisa de recursos, mas também precisa de gente com quem possa discutir uma dificuldade, testar uma hipótese e encontrar caminhos.

Uma conversa pode revelar que outro negócio já enfrentou o mesmo problema. Uma aproximação pode abrir a primeira oportunidade comercial. Uma orientação pode evitar meses de investimento em uma solução que ninguém pretende comprar.

Essas relações ganham valor quando existe confiança e continuidade. Não basta colocar pessoas na mesma sala e esperar que a colaboração aconteça sozinha.

É preciso criar motivos para que elas se encontrem novamente e avancem juntas.

As empresas locais precisam participar dessa construção

Na minha visão, o fortalecimento das startups da região passa pela aproximação com as empresas que já movimentam nossa economia.

Comércio, serviços, turismo, indústria e outros setores enfrentam problemas que podem se tornar oportunidades para novos negócios.

Uma empresa precisa organizar melhor seu estoque. Outra quer reduzir desperdícios. Um empreendimento turístico precisa melhorar o atendimento e sua operação. Um pequeno negócio quer entender seus clientes e vender com mais eficiência.

Essas demandas oferecem um ponto de partida concreto para inovar.

Por isso, considero fundamental aproximar quem conhece o problema de quem pode desenvolver uma solução. A empresa participa com sua experiência, suas necessidades e a possibilidade de testar. A startup contribui com capacidade de experimentar e construir novas respostas.

Essa relação precisa produzir aprendizado para os dois lados. E, quando a solução funciona, precisa encontrar um caminho para virar negócio.

A associação comercial pode ajudar a fazer essa ponte

Vejo nas associações comerciais uma posição estratégica para essa aproximação.

Elas mantêm relações com empresários, conhecem demandas recorrentes e podem facilitar o diálogo com universidades, instituições de apoio, poder público e empreendedores.

No caso da ACES, enxergo a possibilidade de fortalecer essa articulação e ampliar a participação das empresas associadas na agenda de inovação.

O CIAT pode contribuir como lugar de encontro, trabalho e experimentação. Para isso, sua atuação precisa ter uma rotina: escutar empresas, mobilizar empreendedores, organizar conexões e acompanhar os encaminhamentos.

Um espaço ganha relevância quando as pessoas encontram nele condições para avançar.

Essa é também a direção que considero importante para iniciativas como o aces4startup: aproximar startups de demandas empresariais e construir relações que continuem depois da programação inicial.

Comunidade exige trabalho e responsabilidade

Construir uma comunidade envolve receber pessoas, organizar encontros, acompanhar demandas e cuidar das relações.

Alguém precisa identificar uma oportunidade e conectar os envolvidos. Alguém precisa retomar aquela conversa que ficou pendente. Alguém precisa verificar se o teste avançou e entender por que uma parceria não aconteceu.

Esse trabalho exige tempo, coordenação e recursos. Quando depende exclusivamente do esforço eventual de algumas pessoas, a continuidade fica vulnerável.

Por isso, precisamos definir responsabilidades e condições de funcionamento. A disposição para colaborar é essencial, mas precisa encontrar uma estrutura que permita sustentar essa colaboração.

Precisamos acompanhar o que acontece depois

Também acredito que devemos ampliar a forma de avaliar nossas iniciativas.

O número de participantes de um evento é uma informação útil. Mas quero saber quantas conexões avançaram, quantos problemas foram compreendidos e quantas soluções chegaram a ser testadas.

Quero saber se uma empresa encontrou um parceiro, se uma startup conquistou um cliente e se um empreendedor conseguiu tomar uma decisão melhor.

Essas respostas mostram como a inovação começa a contribuir para o desenvolvimento empresarial.

Nosso caminho deve partir do território

O Oeste do Pará tem características, desafios e possibilidades próprios. Nossa agenda de inovação precisa considerar essa realidade e ouvir quem empreende aqui.

Isso significa aproximar conhecimento e mercado, valorizar as competências locais e criar condições para que empreendedores construam negócios a partir das demandas do território.

Tenho convicção de que Santarém pode fortalecer esse movimento. Para avançar, precisamos de instituições comprometidas, empresas dispostas a participar e relações que sejam cuidadas ao longo do tempo.

A inovação ganha força quando uma conexão se transforma em colaboração — e essa colaboração ajuda alguém a resolver um problema real.

É essa construção que quero ajudar a fazer.


Reflexão inspirada na proposta apresentada por Danilo Picucci no artigo “O que uma aceleradora vende não é dinheiro. É comunidade”, publicado em O Elo.

Leitura obrigatória

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