Brasil ocupa a 53ª posição no Índice Global de Inovação: o desafio agora é transformar inovação em crescimento

|

Por Daniel Nunes

O 53º lugar. Esse é o número que provavelmente vai aparecer na maioria das publicações sobre o Índice Global de Inovação 2026.

O Brasil ocupa a 53ª posição entre as economias avaliadas, com 33,5 pontos.

E, sim, é um número importante.

Mas, para mim, ele conta apenas uma parte da história.

Se quisermos entender de fato onde o Brasil está na inovação e, principalmente, por que ainda não conseguimos transformar todo o nosso potencial científico e tecnológico em desenvolvimento econômico precisamos olhar para outros números.

53º não explica tudo

O Índice Global de Inovação, elaborado pela World Intellectual Property Organization (WIPO), mostra os países mais inovadores do mundo a partir de diferentes dimensões relacionadas aos insumos e aos resultados da inovação.

No topo estão:

  1. Suíça — 66,7
  2. Suécia — 63,2
  3. Estados Unidos — 62,3
  4. Coreia do Sul — 61,4
  5. Singapura — 61,0
  6. Reino Unido — 59,6
  7. Países Baixos — 58,4
  8. Finlândia — 57,9
  9. Dinamarca — 57,7
  10. China — 57,0

O Brasil aparece em 53º lugar, com 33,5 pontos.

Mas existe uma informação muito mais interessante escondida atrás desse ranking.

50º contra 66º

O Brasil está em 50º lugar em resultados de inovação.

Mas aparece apenas em 66º lugar em insumos de inovação.

Essa diferença diz muita coisa.

Em outras palavras: entregamos mais resultados do que as condições oferecidas poderiam sugerir.

Não é pouca coisa.

Pelo sexto ano consecutivo, o Brasil aparece como o único país da América Latina a apresentar desempenho de inovação acima do esperado para seu nível de renda.

Isso muda um pouco a narrativa.

Talvez a pergunta não deva ser simplesmente:

“Por que o Brasil está apenas em 53º?”

Talvez devêssemos perguntar:

“Como o Brasil consegue produzir esse resultado mesmo com tantas limitações estruturais?”

E, principalmente:

“O que aconteceria se conseguíssemos melhorar essas condições?”

A ciência brasileira está criando empresas

Outro dado chama atenção.

Entre 2020 e 2025, o número de startups de ciência profunda (deep tech) no Brasil cresceu 96%.

É um crescimento expressivo.

Entre as economias de renda média, apenas Turquia, Índia e Malásia apresentaram crescimento superior nesse período.

Isso mostra que existe uma base científica e tecnológica capaz de gerar novos negócios.

Mas existe um problema.

Grande parte dessas empresas ainda nasce e cresce em um ambiente em que o Estado ocupa um papel desproporcional no financiamento.

Segundo as contribuições brasileiras ao relatório, aproximadamente 70% do financiamento dessas startups é exclusivamente público.

E aqui está uma das grandes contradições do nosso sistema.

O Estado financia a ciência.

A ciência gera tecnologia.

A tecnologia começa a gerar empresas.

Mas, quando chega a hora de essas empresas crescerem, encontrarem mercado, receberem capital e ganharem escala, o sistema começa a falhar.

O gargalo está depois da pesquisa

Os números ajudam a enxergar onde estão alguns desses gargalos.

O Brasil aparece em:

129º lugar em ambiente de negócios.

101º lugar em graduados em ciências e engenharia.

94º lugar em crescimento da produtividade.

Isso é revelador.

Porque inovação não termina quando uma pesquisa gera um artigo científico.

Também não termina quando uma tecnologia é desenvolvida.

E muito menos quando alguém abre um CNPJ.

Existe uma longa cadeia entre conhecimento e desenvolvimento econômico.

Pesquisa → tecnologia → propriedade intelectual → startup → capital → mercado → escala → produtividade.

Se um elo dessa cadeia é fraco, o resultado final também será.

O Estado está fazendo sua parte?

Depois de anos acompanhando ecossistemas de inovação e de atuar diretamente com ciência, tecnologia, empreendedorismo e desenvolvimento, faço uma leitura relativamente simples.

O sistema público brasileiro de fomento tem produzido resultados.

Há problemas? Evidentemente.

Há burocracia? Sim.

Há recursos insuficientes? Em muitas áreas, sim.

Há desigualdade regional? Enorme. Olhe o Norte, o Pará.

Mas os próprios números do índice mostram que existe uma capacidade de produção de inovação que não pode ser ignorada.

O problema aparece com mais força no elo seguinte.

Quem transforma a pesquisa em negócio?

Quem coloca capital privado paciente?

Quem compra a primeira solução?

Quem permite que uma startup de base científica sobreviva ao longo ciclo de desenvolvimento tecnológico?

Quem cria demanda?

Quem ajuda uma empresa deep tech a sair do laboratório e chegar ao mercado?

É aí que precisamos avançar.

Precisamos de mais do que dinheiro público

O próximo salto da inovação brasileira não virá apenas de aumentar os recursos destinados à pesquisa.

Precisamos construir um ambiente no qual diferentes atores consigam atuar de forma coordenada.

  • Capital privado paciente.
  • Compras públicas de inovação em escala.
  • Ambientes regulatórios mais favoráveis.
  • Conexão entre universidades e empresas.
  • Mecanismos de transferência de tecnologia mais eficientes.
  • Mercados para as soluções desenvolvidas.
  • Empresas capazes de absorver e escalar tecnologia.

E, sobretudo, precisamos parar de imaginar que inovação acontece apenas onde existe um grande centro financeiro ou tecnológico.

E existe um outro Brasil fora do eixo tradicional

Esse ponto me interessa particularmente.

Quando falamos em inovação brasileira, ainda é muito comum olhar para São Paulo, Campinas, Florianópolis, Belo Horizonte, Recife e alguns outros polos já consolidados.

Eles são importantes.

Mas o Brasil não termina nesses territórios.

Existe uma enorme capacidade científica, empreendedora e tecnológica espalhada por outras regiões.

E aqui entra a Amazônia.

Não precisamos apenas importar modelos de ecossistemas desenvolvidos em outras regiões.

Precisamos construir ecossistemas adequados às nossas próprias características econômicas, territoriais e produtivas.

Santarém, por exemplo, não precisa ser uma cópia de São Paulo para ser inovadora.

Pode construir sua própria combinação entre universidade, empresas, governo, startups, capital, conhecimento tradicional, biodiversidade e desafios territoriais.

A inovação amazônica precisa responder aos problemas e às oportunidades da Amazônia.

E isso significa transformar desafios locais em mercado, tecnologia, propriedade intelectual e novos negócios.

O verdadeiro desafio

Por isso, eu não vejo o 53º lugar como uma sentença.

Vejo como um diagnóstico.

O Brasil já demonstra capacidade de produzir inovação mesmo com condições abaixo das necessárias.

Está em 50º em resultados, enquanto ocupa 66º em insumos.

Suas startups de ciência profunda cresceram 96% em cinco anos.

Mas ainda dependem fortemente do financiamento público.

E seguimos enfrentando gargalos importantes em ambiente de negócios, formação científica e produtividade.

A questão, portanto, não é apenas:

“Como fazer o Brasil subir no ranking?”

A pergunta mais importante é:

Como transformar a capacidade de inovação que o Brasil já possui em empresas maiores, mercados maiores, produtividade maior e desenvolvimento regional?

Se o Brasil já consegue fazer mais com menos, talvez a prioridade para o próximo salto não seja simplesmente colocar mais recursos na entrada.

Talvez seja construir melhor a ponte entre ciência, capital, empresa e mercado.

Porque inovação não é apenas produzir conhecimento.

É conseguir transformar conhecimento em valor.

E, no Brasil, talvez esse seja o próximo grande desafio.

Fonte: Global Innovation Index Database, WIPO, 2026.

Leitura obrigatória