Independência tecnológica ou morte

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Neste 7 de Setembro, talvez valha atualizar a pergunta sobre independência.

pouco mais de dois séculos, independência significava soberania política. Hoje, uma parcela crescente da soberania de um país passa por algo menos visível: sua capacidade de dominar tecnologias, transformar conhecimento em produtividade e construir empresas capazes de competir no mundo.

E os números brasileiros expõem uma contradição incômoda.

Em 2025, o Brasil registrou um superávit comercial de US$ 68,3 bilhões, sustentado principalmente pelo agronegócio e pela indústria extrativa. No mesmo período, acumulou um déficit de US$ 50,6 bilhões em bens de alta intensidade tecnológica, o maior da série histórica.

A interpretação mais fácil é conhecida: o Brasil teria uma vocação natural para commodities. Vendemos aquilo que plantamos e extraímos e compramos aquilo que os outros inventam.

Essa explicação é confortável.

E provavelmente está errada.

O agro brasileiro é uma indústria de tecnologia

Desde 2012, a produção brasileira de grãos mais que dobrou, enquanto a área plantada cresceu 66,8%.

A diferença entre essas duas curvas não foi produzida pela geografia.

Foi produzida por tecnologia.

Genética, manejo de solo, fertilizantes, defensivos, máquinas, agricultura de precisão, sensoriamento, meteorologia e décadas de pesquisa agropecuária transformaram uma parcela considerável do território brasileiro em uma das plataformas agrícolas mais produtivas do planeta.

Portanto, o sucesso do agro não demonstra que o Brasil prospera apesar da ciência.

Demonstra exatamente o contrário.

O Brasil consegue produzir ciência, tecnologia e produtividade quando existe continuidade suficiente entre pesquisa, aplicação e mercado.

Talvez essa seja uma das lições mais importantes para quem pretende discutir política tecnológica no país.

O problema brasileiro não parece ser simplesmente falta de ciência.

É nossa dificuldade de reproduzir esse mecanismo em outros setores da economia.

E então aparece a Embraer

Sempre que essa discussão começa, alguém menciona a Embraer.

Com razão. Mas frequentemente pela razão errada.

A história costuma ser apresentada de maneira quase linear: criou-se o ITA, formaram-se engenheiros, o Estado criou a Embraer e algumas décadas depois surgiu uma das principais fabricantes de aeronaves comerciais do mundo.

A história real é muito mais interessante — e muito mais útil.

A Embraer nasceu em 1969 a partir de uma combinação extraordinária de pessoas, conhecimento acumulado e decisões institucionais.

Ozires Silva coordenou o desenvolvimento do demonstrador do Bandeirante. O então diretor do CTA, Tenente-Brigadeiro Paulo Victor da Silva, viabilizou recursos e apoio institucional para um projeto que enfrentava resistência dentro da própria Força Aérea.

E havia algo ainda mais importante: uma base de técnicos, engenheiros e conhecimento aeronáutico que não surgiu espontaneamente no momento da criação da empresa — e cuja história antecede inclusive a criação do ITA.

Instituições importam.

Formação importa.

Pesquisa importa.

Mas transformar condições importantes em uma explicação causal simples pode produzir uma conclusão perigosa: a ideia de que basta reproduzir os mesmos instrumentos institucionais para reproduzir os mesmos resultados.

Não basta.

Existe ainda uma segunda Embraer que raramente aparece nessa história

No início dos anos 1990, a Embraer entrou em uma crise profunda.

A empresa reduziu drasticamente seu quadro de pessoal, perdendo uma parcela particularmente relevante de sua engenharia.

Se a existência de institutos de pesquisa, engenheiros e investimento estatal fosse condição suficiente para o sucesso empresarial, a história poderia ter terminado ali.

Não terminou.

A privatização, concluída em 1994, inaugurou outra fase da empresa. Vieram mudanças de gestão, disciplina de capital, orientação comercial, novos programas aeronáuticos, integração internacional de fornecedores e uma relação muito mais direta entre engenharia, produto e mercado.

A Embraer que admiramos hoje é também resultado dessa transformação.

Isso não diminui a importância do investimento público que ajudou a criar competências aeronáuticas brasileiras.

Ao contrário.

Torna a história muito mais valiosa.

Porque mostra que criar conhecimento e transformar conhecimento em valor econômico são problemas diferentes.

Uma política tecnológica madura precisa resolver os dois.

E é exatamente aqui que começa nosso problema

O Brasil estabeleceu a meta de elevar seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento para 2% do PIB até 2034. Hoje estamos em aproximadamente 1,23%.

É tentador concluir que falta dinheiro.

Talvez falte.

Mas existe uma pergunta que deveria vir antes:

Sabemos medir o que aconteceu com o dinheiro que já gastamos?

Quanto do investimento público em P&D gerou propriedade intelectual relevante?

Quanto chegou ao mercado?

Quanto aumentou a produtividade das empresas?

Quanto gerou exportações?

Quanto criou empresas tecnologicamente competitivas?

Quanto induziu investimento privado adicional?

E, talvez a pergunta mais importante: quais políticas não produziram resultados e foram encerradas por causa disso?

Sem respostas robustas para essas perguntas, elevar o investimento pode significar simplesmente aumentar a escala do sistema existente.

Inclusive de seus desperdícios.

O indicador que deveria nos incomodar

Há uma série histórica que merece muito mais atenção nessa discussão: o investimento privado brasileiro em P&D.

Observe sua evolução desde a década de 1990 e compare-a com as sucessivas políticas de incentivo à inovação implantadas desde então.

Criamos fundos, programas, subsídios, incentivos fiscais, linhas de financiamento e novos instrumentos institucionais.

Mas o resultado agregado sobre o esforço tecnológico empresarial permanece decepcionante.

Esse deveria ser um enorme sinal de alerta.

Porque o objetivo de uma política de inovação não deveria ser maximizar o orçamento destinado à inovação.

Deveria ser tornar progressivamente desnecessário que o Estado seja o principal responsável por empurrar a inovação.

Em economias tecnologicamente dinâmicas, empresas investem em P&D porque inovar é condição para sobreviver, crescer e capturar mercados.

O investimento público pode assumir riscos que o setor privado não assumiria sozinho. Pode financiar ciência básica, formar capital humano, criar infraestrutura científica, apoiar tecnologias estratégicas e ajudar a atravessar o chamado vale da morte entre laboratório e mercado.

Mas, ao final dessa cadeia, alguma empresa precisa querer investir seu próprio dinheiro.

Se isso não acontece, temos um problema que não será resolvido simplesmente aumentando o orçamento público.

Antes de 2% do PIB, precisamos construir a máquina de medir

Por isso, se tivesse que escolher hoje entre duas prioridades — aumentar imediatamente o volume de recursos ou construir uma infraestrutura capaz de medir rigorosamente seus resultados — eu escolheria a segunda.

Não porque P&D seja pouco importante.

Precisamente porque é importante demais para ser administrado sem mecanismos rigorosos de avaliação.

Precisamos saber acompanhar recursos desde sua origem até seus efeitos econômicos e tecnológicos.

Precisamos comparar empresas beneficiadas com grupos equivalentes que não receberam incentivos.

Precisamos medir adicionalidade: descobrir se determinado programa fez uma empresa investir mais ou simplesmente subsidiou um investimento que ela faria de qualquer maneira.

Precisamos acompanhar patentes, mas também produtos.

Publicações, mas também produtividade.

Startups criadas, mas também empresas que sobreviveram.

Crédito concedido, mas também receita tecnológica, exportações e retorno sobre o capital.

E precisamos fazer algo especialmente difícil para o Estado brasileiro:

encerrar programas que não funcionam.

Política tecnológica também precisa de seleção natural.

O verdadeiro ensinamento do agro e da Embraer

Talvez agro e Embraer tenham algo em comum que normalmente ignoramos.

Nenhum dos dois nasceu de uma política isolada.

Foram processos históricos longos, construídos pela interação entre conhecimento, pessoas, instituições, capital, empresas e mercado.

Em ambos os casos houve Estado.

Em ambos houve ciência.

Em ambos houve engenharia.

Mas também houve empresários, decisões difíceis, erros, competição, risco e pressão por resultados.

É essa arquitetura completa que precisamos compreender.

Porque soberania tecnológica não se mede pelo tamanho do orçamento de ciência e tecnologia.

Nem pelo número de programas lançados.

Nem pelo volume de crédito anunciado.

Mede-se pela capacidade de um país transformar conhecimento em produtividade, empresas, produtos e poder econômico.

Independência tecnológica ou morte

O Brasil já demonstrou que consegue fazer isso.

Nos campos.

Na aviação.

Em algumas áreas de energia.

Em segmentos específicos da indústria e da ciência.

Nosso desafio é descobrir por que esses casos funcionaram — inclusive separando causalidade de coincidência e mitologia institucional de evidência — e construir mecanismos que permitam repetir seus elementos essenciais.

Neste 7 de Setembro, portanto, talvez a discussão sobre independência tecnológica devesse começar com uma mudança de pergunta.

Em vez de:

“Quanto precisamos gastar em P&D?”

Perguntar:

“O que cada real investido está mudando na capacidade tecnológica brasileira?”

E somente depois:

“Onde vale a pena colocar o próximo real?”

Chegar a 2% do PIB em P&D pode ser uma excelente ambição.

Mas 2% sem avaliação pode ser apenas uma meta contábil.

A verdadeira independência tecnológica começará quando o Brasil conseguir distinguir investimento de despesa, política industrial de transferência de recursos e inovação de intenção.

Antes de gastar mais, precisamos aprender sistematicamente com aquilo que já gastamos.

Porque independência tecnológica não se decreta.

Constrói-se, mede-se, corrige-se — e então se escala.

Leitura obrigatória