Quando uma empresa busca recursos para desenvolver uma nova tecnologia, é comum começar por uma pergunta aparentemente simples:
“Qual edital está aberto?”
A pergunta é legítima, mas pode levar a uma visão limitada do financiamento à inovação.
Subvenção econômica, bolsas, crédito para inovação, incentivos fiscais e cooperação com Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) não precisam ser tratados como caminhos concorrentes. Dependendo das características do projeto, esses mecanismos podem cumprir funções diferentes ao longo de uma mesma trajetória tecnológica.
A questão, portanto, não é apenas encontrar uma fonte de recursos.
É construir uma estratégia de financiamento coerente com a maturidade da tecnologia, os riscos envolvidos e as próximas entregas do projeto.
Diferentes etapas exigem diferentes instrumentos
Projetos de inovação mudam ao longo do tempo.
Nas etapas iniciais, uma empresa pode estar concentrada em pesquisa, formação da equipe técnica, experimentação e redução de incertezas. Mais adiante, o desafio pode passar pela construção de protótipos, validação tecnológica, testes em ambiente relevante, certificações, industrialização ou entrada no mercado.
Consequentemente, a necessidade financeira também muda.
Um único instrumento de fomento dificilmente responde, sozinho, a todas essas etapas.
É possível, por exemplo, estruturar uma trajetória na qual a empresa:
incorpore pesquisadores e profissionais especializados por meio de bolsas;
utilize recursos não reembolsáveis para enfrentar etapas de maior risco tecnológico;
desenvolva atividades de P&D em cooperação com ICTs ou Unidades Embrapii;
recorra a crédito para inovação quando precisar financiar infraestrutura, equipamentos, implantação ou expansão;
utilize incentivos fiscais, como a Lei do Bem, sobre dispêndios elegíveis realizados com recursos próprios, observados os requisitos aplicáveis.
A lógica deixa de ser “qual instrumento escolher?” e passa a ser:
“Qual papel cada instrumento pode desempenhar dentro da estratégia tecnológica e financeira do projeto?”
Combinar instrumentos não significa simplesmente acumular recursos
Existe, porém, uma diferença importante entre combinar instrumentos de forma planejada e simplesmente tentar captar recursos em diferentes programas.
Cada mecanismo possui regras próprias.
Podem existir diferenças quanto às despesas financiáveis, necessidade de contrapartida, período de execução, natureza dos recursos, requisitos para participação, propriedade intelectual, prestação de contas e possibilidade de utilização simultânea com outras fontes.
Também é necessário observar cuidadosamente a origem dos recursos utilizados em cada atividade.
Em determinadas situações, a mesma despesa não pode ser financiada ou utilizada simultaneamente para obtenção de benefícios distintos. Em outras, diferentes fontes podem coexistir no mesmo projeto desde que haja segregação adequada das atividades, despesas e respectivas fontes de financiamento.
Por isso, a estratégia precisa ser construída antes da contratação dos instrumentos, e não apenas depois que os recursos chegam.
Do edital isolado à arquitetura de financiamento
Uma forma mais estruturada de pensar o fomento é relacioná-lo ao roadmap tecnológico da empresa.
Imagine, por exemplo, um projeto que precise avançar por cinco grandes etapas:
Pesquisa → Prova de conceito → Protótipo → Validação → Escala
Cada etapa possui um nível diferente de incerteza, necessidade de capital, conhecimento especializado e proximidade do mercado.
Isso permite construir uma arquitetura na qual diferentes instrumentos sejam avaliados de acordo com sua função no desenvolvimento do projeto.
Bolsas podem apoiar a formação ou ampliação da capacidade de P&D. Recursos não reembolsáveis podem ser especialmente relevantes em etapas de elevada incerteza tecnológica. A cooperação com ICTs pode permitir acesso a conhecimento, pesquisadores e infraestrutura tecnológica. O crédito pode assumir maior importância quando o projeto avança para investimentos de maior escala. Incentivos fiscais podem integrar a estratégia de empresas que realizam dispêndios próprios em atividades elegíveis de pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Não existe, entretanto, uma sequência universal.
A arquitetura adequada depende das características da empresa e do projeto.
Cinco perguntas para estruturar a estratégia de fomento
Antes de procurar oportunidades de financiamento, vale responder a algumas perguntas fundamentais:
1. Em que estágio tecnológico o projeto está?
É pesquisa inicial, prova de conceito, desenvolvimento experimental, prototipagem, validação, industrialização ou expansão?
2. Quais são os principais riscos das próximas etapas?
O desafio é científico, tecnológico, regulatório, produtivo, comercial ou financeiro?
3. Quais recursos serão necessários?
Equipe, pesquisadores, laboratórios, equipamentos, serviços tecnológicos, materiais, certificações, infraestrutura ou capital para expansão?
4. Quais entregas precisam ser alcançadas antes da etapa seguinte?
Um protótipo funcional? Um teste de desempenho? Uma validação em ambiente relevante? Uma certificação? Uma planta-piloto?
5. Qual instrumento é compatível com cada necessidade?
Somente depois dessas respostas faz sentido analisar editais, linhas de crédito, programas de bolsas, incentivos fiscais e possibilidades de cooperação tecnológica.
O instrumento deve servir ao projeto — e não o contrário
Um dos riscos de uma estratégia orientada exclusivamente por editais é adaptar artificialmente projetos às oportunidades disponíveis.
Quando isso acontece, a empresa pode acabar assumindo cronogramas inadequados, despesas que não correspondem às prioridades tecnológicas ou obrigações incompatíveis com sua estratégia.
Uma abordagem mais consistente parte do caminho inverso:
primeiro, compreender o projeto; depois, identificar os instrumentos capazes de apoiá-lo.
Isso também ajuda a empresa a olhar além da oportunidade disponível naquele momento.
Um edital pode financiar apenas uma etapa. Mas aquela etapa precisa preparar o projeto para a seguinte.
Assim, uma boa estratégia de fomento considera não apenas como captar recursos agora, mas também o que precisará acontecer depois que esses recursos forem utilizados.
Fomento como arquitetura de inovação
Pensar o financiamento dessa maneira transforma a gestão do fomento.
Em vez de uma sequência de inscrições em editais, passa-se a construir uma arquitetura que conecta:
estratégia tecnológica + maturidade + riscos + atividades + parceiros + instrumentos financeiros + entregas.
Essa perspectiva é especialmente importante para empresas que mantêm portfólios contínuos de pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Quanto maior a ambição tecnológica, menos sentido faz tratar cada oportunidade de financiamento como um evento isolado.
O desafio passa a ser construir uma trajetória na qual recursos públicos e privados, competências internas, parceiros tecnológicos e instrumentos de incentivo contribuam para o avanço consistente da inovação.
A pergunta muda
Em vez de perguntar apenas:
“Qual edital está aberto?”
uma empresa orientada por estratégia pode começar por uma questão mais relevante:
“Qual trajetória de financiamento é adequada ao estágio, aos riscos e às próximas entregas do nosso projeto?”
Essa mudança parece pequena.
Mas é justamente ela que transforma o fomento de uma busca por oportunidades em uma estratégia de financiamento da inovação.
dStart — inteligência para estruturar projetos, oportunidades e estratégias de inovação.