Eleições 2026: o que os planos de governo propõem para Ciência, Tecnologia e Inovação?

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Inteligência artificial, semicondutores, minerais críticos, biotecnologia, data centers e transição energética já não são apenas temas de especialistas. São peças centrais da disputa global por produtividade, soberania e desenvolvimento econômico.

Mas qual espaço essas agendas ocupam nos planos dos candidatos à Presidência da República em 2026?

Uma análise comparativa dos 12 programas de governo apresentados ao TSE ajuda a responder essa pergunta. O exercício, realizado com apoio de inteligência artificial a partir dos próprios documentos dos candidatos, organizou as propostas em quatro dimensões: visão para Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), modelo ou volume de investimento, linhas prioritárias de financiamento e tecnologias consideradas estratégicas.

O resultado mostra algo interessante: existem diferenças profundas sobre como financiar e organizar a inovação brasileira, mas também algumas convergências surpreendentes sobre onde o país deveria concentrar seus esforços.

Quatro visões diferentes para a política tecnológica brasileira

Uma primeira divisão aparece na própria concepção do papel do Estado, das universidades e do setor privado na inovação.

Lula e Ronaldo Caiado apresentam, segundo o comparativo, os desenhos mais próximos de uma política nacional sistêmica de CT&I, conectando financiamento, universidades, empresas, política industrial e tecnologias estratégicas.

No programa de Lula, a ênfase está na continuidade e ampliação de instrumentos existentes, como FNDCT, política industrial, infraestrutura digital e mecanismos de financiamento, com forte atenção à soberania tecnológica e à redução da dependência externa.

Caiado, por sua vez, apresenta uma arquitetura bastante detalhada, baseada em financiamento plurianual, missões tecnológicas e integração entre instrumentos e instituições como Finep, BNDES, EMBRAPII, universidades e empresas.

Um segundo grupo Augusto Cury, Flávio Bolsonaro, Renan Santos e Romeu Zema coloca maior peso na transformação da pesquisa em produtividade, produtos, empresas e cadeias industriais.

Cury enfatiza universidades empreendedoras, pesquisa aplicada e integração universidade-empresa. Flávio Bolsonaro destaca IA, GovTech, produtividade, transferência tecnológica e integração às cadeias globais. Renan Santos concentra grande parte de sua estratégia em defesa, minerais críticos, terras raras e cadeias industriais estratégicas. Zema dá mais peso à eficiência, ao desempenho das instituições e à ampliação do investimento privado.

Há ainda uma terceira visão.

PCB, PSTU, UP e PCO associam Ciência e Tecnologia principalmente à soberania econômica e tecnológica, defendendo maior protagonismo do Estado, das universidades públicas e das empresas estatais e menor dependência do capital privado ou estrangeiro.

Dentro desse grupo também existem diferenças importantes: o PCB apresenta propostas específicas para semicondutores e para o complexo industrial da saúde; o PSTU enfatiza infraestrutura digital e IA públicas; a UP associa CT&I à reindustrialização e às necessidades sociais; e o PCO aborda tecnologia principalmente dentro de uma estratégia mais ampla de estatização e controle de setores estratégicos.

Wilson Grassi segue por um caminho distinto. Em vez de priorizar uma extensa lista de tecnologias, concentra uma parte importante da proposta na estrutura institucional da própria ciência, incluindo carreira federal para pesquisadores e financiamento plurianual.

Clariana Barão apresenta, segundo o comparativo, uma agenda de CT&I menos detalhada, embora seu programa trate de IA, conectividade, competências digitais e inovação.

O ponto fraco está no dinheiro

Talvez a conclusão mais importante do levantamento esteja menos nas tecnologias escolhidas e mais em uma pergunta básica:

quanto cada governo pretende efetivamente investir em Ciência, Tecnologia e Inovação?

É justamente aí que aparece uma grande lacuna.

A maioria dos candidatos afirma que pretende ampliar, reorganizar ou estabilizar investimentos, mas não estabelece uma meta financeira global e inequívoca para CT&I.

Lula e Caiado apresentam instrumentos relativamente estruturados de financiamento, mas não definem uma nova meta global de investimento em CT&I como percentual do PIB.

Cury, Flávio Bolsonaro, PCB, UP e Wilson Grassi falam em ampliação ou estabilização de recursos sem definir um orçamento total para o setor.

Zema enfatiza redistribuição por desempenho e atração de P&D privado, venture capital e investimento estrangeiro.

PSTU e PCO trabalham com modelos predominantemente estatais associados a mudanças mais amplas na organização econômica.

Clariana Barão deixa as metas quantitativas para uma etapa posterior.

Renan Santos apresenta uma das cifras mais concretas do comparativo: a proposta de ampliar o FGAM inicialmente em R$ 2 bilhões, podendo chegar a R$ 5 bilhões, conforme o espaço fiscal. Mas o recurso está ligado principalmente à cadeia de minerais críticos e terras raras — não representa um orçamento global para CT&I.

Portanto, valores citados em políticas industriais, ambientais, minerais ou educacionais não devem ser automaticamente tratados como investimento direto em Ciência e Tecnologia.

Apesar das diferenças políticas, há uma agenda tecnológica em comum

Se há divergência sobre financiamento e papel do Estado, existe uma convergência considerável na escolha das tecnologias consideradas estratégicas.

Cinco áreas aparecem repetidamente nos programas.

1. Inteligência Artificial e infraestrutura digital

IA é uma das maiores convergências do levantamento. Aparece, com diferentes enfoques, nos programas de Lula, Augusto Cury, Flávio Bolsonaro, Caiado, PSTU, Zema e Clariana Barão.

As propostas vão de modelos de linguagem em português e infraestrutura computacional soberana até aplicações empresariais, educacionais e governamentais.

2. Minerais críticos e terras raras

O tema aparece em Lula, Cury, Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Caiado, PCO e Zema.

A razão estratégica é evidente nos próprios programas: esses recursos estão ligados a cadeias tecnológicas e industriais de alto valor agregado.

3. Semicondutores e microeletrônica

Cury, Renan Santos, Caiado e PCB apresentam propostas particularmente explícitas, enquanto Lula também inclui semicondutores entre as cadeias tecnológicas estratégicas.

Poucas tecnologias ilustram tão bem a relação entre ciência, indústria e soberania quanto os chips.

4. Biotecnologia e saúde

Aparecem, sob diferentes perspectivas, nas propostas de Lula, Cury, Flávio Bolsonaro, Caiado, PCB, Zema e Wilson Grassi.

Medicamentos, biotecnologia agrícola, complexo industrial da saúde, pesquisa veterinária e novos materiais fazem parte desse conjunto.

5. Energia limpa e tecnologias de baixo carbono

Lula, Cury, Flávio Bolsonaro, Caiado e Zema apresentam iniciativas nessa direção. A UP também trata da transição energética, embora dentro de uma abordagem econômica distinta.

A convergência tecnológica não significa convergência política

Duas candidaturas podem mencionar exatamente a mesma tecnologia e, ainda assim, defender políticas completamente diferentes para desenvolvê-la.

É aí que o comparativo se torna especialmente interessante.

IA pode significar soberania digital e infraestrutura pública para um candidato, aumento da produtividade empresarial para outro e infraestrutura tecnológica estatal para um terceiro.

O mesmo ocorre com semicondutores, minerais críticos ou biotecnologia.

Em outras palavras, a lista de tecnologias prioritárias conta apenas parte da história. É preciso observar também quem financia, quem executa, quais instituições participam, como o setor privado entra na equação e qual objetivo econômico está por trás do investimento.

Quem apresenta os planos mais estruturados?

Considerando exclusivamente os critérios utilizados no levantamento — detalhamento da estratégia de CT&I, instrumentos de financiamento e definição de prioridades tecnológicas — a leitura documental realizada com apoio de IA aponta Caiado e Lula como os programas mais estruturados nesse recorte.

Em seguida aparecem Augusto Cury, Romeu Zema, Flávio Bolsonaro e Renan Santos.

O PCB apresenta propostas específicas em áreas como semicondutores e saúde, embora dentro de um modelo econômico bastante diferente dos anteriores.

Wilson Grassi se diferencia pela atenção à carreira científica e à previsibilidade do financiamento.

Essa classificação, contudo, precisa ser interpretada corretamente: um plano mais detalhado não significa necessariamente um plano melhor. O levantamento mede estrutura e especificidade das propostas de CT&I, e não sua viabilidade econômica, impacto esperado ou mérito político.

A pergunta que continua sem resposta

No fim, talvez a principal conclusão do comparativo seja justamente aquilo que não aparece nos programas.

Nenhum dos 12 planos analisados apresenta uma meta completa e inequívoca semelhante a:

“O Brasil elevará o investimento em P&D para X% do PIB até 2030, seguindo este cronograma e utilizando estas fontes de recursos.”

Esse é um ponto relevante porque estratégias ambiciosas para inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, minerais críticos ou transição energética exigem não apenas prioridades, mas capacidade financeira de execução.

A eleição de 2026 mostra que Ciência e Tecnologia ganharam espaço no discurso sobre o futuro do país.

O próximo passo é transformar prioridades tecnológicas em compromissos mensuráveis.

Para o ecossistema brasileiro de inovação, talvez essa seja uma das perguntas mais importantes a fazer aos candidatos:

quanto o Brasil pretende investir em Ciência, Tecnologia e Inovação — e como esse dinheiro chegará da promessa à pesquisa, às empresas e à economia real?

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