Há etapas na trajetória acadêmica que representam mais do que o cumprimento de uma exigência. A qualificação do mestrado é uma delas. É o momento de apresentar à banca o caminho construído até aqui, submeter escolhas e argumentos à avaliação acadêmica e, principalmente, receber contribuições para o aperfeiçoamento da pesquisa.
Neste mês de setembro de 2026, avanço para essa etapa no Mestrado Profissional em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação (PROFNIT), com uma pesquisa dedicada à gestão estratégica da Propriedade Intelectual no ambiente empresarial de Santarém, desenvolvida em parceria com a Associação Comercial e Empresarial de Santarém (ACES).
Propriedade Intelectual para além do registro
Quando se fala em Propriedade Intelectual (PI), é comum pensar imediatamente em marcas, patentes e registros. Esses mecanismos são importantes, mas a discussão empresarial pode ir além.
Uma empresa desenvolve, ao longo de sua trajetória, diferentes ativos associados ao conhecimento, à criatividade, à inovação e à sua própria identidade no mercado. Reconhecer esses ativos, compreender as possibilidades de proteção e incorporá-los às decisões da organização transforma a PI em uma questão também relacionada à estratégia empresarial. Essa é uma das perspectivas que orientam a pesquisa.
Essa discussão ganha relevância quando direcionamos o olhar para as Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMEs). A inovação nessas organizações não precisa estar associada exclusivamente a grandes estruturas de pesquisa e desenvolvimento ou à produção de tecnologias altamente complexas. Ela também pode aparecer na melhoria de produtos, serviços, processos e práticas organizacionais.
Surge, então, uma questão importante: como aproximar a Propriedade Intelectual da realidade cotidiana dessas empresas?
É nesse espaço que minha pesquisa se desenvolve.
Um olhar para Santarém
Realizar essa investigação em Santarém também significa olhar para o nosso próprio ambiente empresarial.
A pesquisa parte da compreensão de que empresas podem apresentar diferentes necessidades em relação à Propriedade Intelectual. Algumas podem estar iniciando o contato com o tema; outras podem já utilizar determinados mecanismos de proteção; e outras podem buscar uma integração mais sistemática desses ativos às suas estratégias.
Por isso, mais do que simplesmente perguntar se uma empresa possui ou não determinado registro, interessa compreender como a Propriedade Intelectual é percebida e como pode se aproximar das práticas de gestão e inovação.
Nesse contexto, a ACES constitui o ambiente institucional no qual a pesquisa está sendo desenvolvida. A proposta reconhece a proximidade de uma associação empresarial com as empresas e investiga possibilidades de fortalecimento dessa atuação no campo da sensibilização, identificação inicial de necessidades e articulação com atores especializados.
Isso também ajuda a conectar a pesquisa acadêmica a uma preocupação muito concreta: como o conhecimento produzido no mestrado pode dialogar com problemas e oportunidades existentes no território?
Pesquisa aplicada: conhecimento que dialoga com a realidade
Essa talvez seja uma das características que mais me mobilizam no mestrado profissional.
A pesquisa não se encerra na discussão conceitual. Ela procura aproximar Propriedade Intelectual, inovação, gestão e realidade empresarial, buscando construir conhecimento que possa contribuir para o contexto estudado.
O trabalho está inserido justamente nessa perspectiva aplicada do PROFNIT, articulando investigação científica, Propriedade Intelectual, inovação e Transferência de Tecnologia a um problema observado em ambiente real.
Ao mesmo tempo, existe uma preocupação importante em não atribuir à pesquisa uma abrangência maior do que aquela que efetivamente possui. O estudo está situado em um contexto específico e suas possíveis contribuições dependem do processo de desenvolvimento, validação e análise que ainda integra a trajetória da dissertação.
Essa delimitação também faz parte do rigor científico.
Chegar à qualificação
Até chegar aqui, foram muitas leituras, revisões, decisões, dúvidas, reformulações e horas tentando transformar uma inquietação inicial em um problema de pesquisa academicamente estruturado.
A qualificação não representa o encerramento desse percurso. Pelo contrário: é uma etapa de amadurecimento.
É quando aquilo que foi construído deixa, por algum tempo, a mesa do pesquisador e passa pelo olhar criterioso de outros pesquisadores. Questionamentos e críticas fazem parte desse processo e têm uma função fundamental: identificar fragilidades, testar a coerência das escolhas realizadas e contribuir para que a dissertação avance com maior consistência.
Por isso, chegar à banca de qualificação significa também reconhecer que uma pesquisa é construída progressivamente.
Há muito trabalho pela frente.
Propriedade Intelectual, Amazônia e desenvolvimento
Desenvolver essa discussão a partir de Santarém acrescenta uma dimensão que considero especialmente relevante.
Quando falamos em inovação, tecnologia e Propriedade Intelectual, não precisamos restringir nosso olhar aos grandes centros tecnológicos. Esses temas também dizem respeito às empresas, instituições, universidades e empreendedores que constroem diariamente a economia das cidades amazônicas.
Fortalecer a compreensão sobre ativos intelectuais e aproximar conhecimento, inovação e ambiente empresarial pode contribuir para ampliar as capacidades existentes no território.
Minha pesquisa ocupa apenas uma pequena parte dessa discussão e é importante reconhecer esse limite. Mas é justamente por meio de investigações contextualizadas, conexões institucionais e soluções construídas a partir de problemas reais que podemos ampliar o diálogo entre universidade, empresas e sociedade.
O próximo passo
Agora, o próximo marco é a banca de qualificação.
Chego a essa etapa consciente de que o trabalho ainda está em construção e de que as contribuições da banca serão importantes para definir os próximos passos da pesquisa.
Por questões relacionadas à autoria, ao ineditismo e às futuras possibilidades de publicação acadêmica e tecnológica, detalhes metodológicos, instrumentos, produtos em desenvolvimento, dados e resultados da pesquisa não serão apresentados neste espaço neste momento.
Por enquanto, compartilho aquilo que considero mais importante: o propósito que orienta essa trajetória.
Pensar a Propriedade Intelectual não apenas como proteção, mas como parte da estratégia, da inovação e da capacidade de transformar conhecimento em valor — e fazer essa discussão a partir da realidade empresarial de Santarém.
A qualificação será mais um passo nessa construção.
E seguimos pesquisando.
