Ceará vira rota dos bilhões da IA: Voltalia prepara data center de R$ 181,7 bi no Pecém

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Durante muito tempo, o Ceará foi vendido ao mundo por sol, praia e turismo. Agora, sol e vento estão ajudando o estado a disputar outro mercado: a infraestrutura que sustenta inteligência artificial, cloud e a economia digital global.

Pouco depois de o projeto ligado à ByteDance, dona do TikTok, colocar o Pecém no mapa dos maiores investimentos em data centers do Brasil, a francesa Voltalia avançou com outro projeto gigantesco.

O Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação aprovou a instalação de um data center ligado à companhia na ZPE do Ceará, no Complexo do Pecém. O investimento previsto é de R$ 181,7 bilhões, com capacidade projetada de aproximadamente 322 MW.

Para colocar o tamanho disso em perspectiva: somados aos cerca de R$ 200 bilhões previstos para o projeto contratado pela ByteDance, os dois empreendimentos podem representar quase R$ 382 bilhões em investimentos projetados no Ceará.

Por que todo mundo está olhando para o Ceará?

Data center não escolhe endereço pela vista para o mar.

A equação envolve principalmente energia em enorme quantidade, conexão com redes de telecomunicações, disponibilidade de terrenos e infraestrutura elétrica. E o Ceará conseguiu reunir várias dessas peças no mesmo lugar.

Fortaleza já funciona como um importante ponto de conexão internacional da internet, com cabos submarinos ligando o Brasil à Europa, Estados Unidos, África e Caribe. O Pecém acrescenta a essa conectividade um grande complexo industrial, disponibilidade territorial e proximidade de uma das regiões com melhores recursos eólicos do país.

Para uma indústria que consome eletricidade em escala industrial, isso é uma vantagem enorme.

A própria Voltalia já garantiu 322 MW de capacidade de conexão ao Sistema Interligado Nacional no Pecém e afirma que pretende desenvolver projetos renováveis dedicados principalmente eólicos para atender à demanda da infraestrutura digital.

Só que existe uma diferença importante

Apesar do tamanho do número anunciado, não significa que a Voltalia chegará amanhã ao Ceará e gastará R$ 181,7 bilhões construindo prédios cheios de servidores.

Projetos de data centers dessa escala normalmente dividem os aportes entre a infraestrutura física e os equipamentos de TI instalados pelos futuros usuários. A Reuters destaca justamente que parte relevante desses investimentos costuma ficar a cargo das empresas que efetivamente utilizarão a capacidade computacional.

E há outro detalhe importante: a Voltalia ainda está buscando quem vai ocupar essa capacidade.

Em junho, a companhia dizia estar em “discussões avançadas” com vários operadores de data centers. Ou seja, o projeto possui terreno estratégico, conexão elétrica e aprovação para avançar, mas a demanda comercial ainda é uma peça essencial para transformar todo o investimento projetado em infraestrutura efetivamente construída.

O novo petróleo pode precisar de muito vento

Se esses projetos avançarem, o Ceará pode acabar ocupando uma posição curiosa na nova economia digital. Durante décadas, grandes polos industriais surgiram próximos de petróleo, gás, minério, rios ou grandes centros consumidores.

A infraestrutura de IA está mudando essa geografia.

Treinar modelos, executar inferências, armazenar bilhões de arquivos e manter serviços digitais funcionando 24 horas por dia exige quantidades colossais de eletricidade. Assim, regiões capazes de combinar energia competitiva + conectividade internacional + terrenos + infraestrutura elétrica passam a ter um ativo que poucos anos atrás quase não aparecia nas estratégias de desenvolvimento econômico.

E é justamente aí que o Ceará começa a ganhar vantagem.

O projeto da Voltalia prevê 2.300 empregos diretos durante a implantação e cerca de 400 na operação. O número relativamente pequeno de empregos permanentes diante de um investimento de centenas de bilhões também revela a natureza dessa nova indústria: data centers são extremamente intensivos em capital e energia, mas não necessariamente em mão de obra.

Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas quanto dinheiro será investido.

É quanto dessa nova economia ficará no Ceará.

Energia, construção, engenharia, telecomunicações, manutenção, serviços de cloud, pesquisa e desenvolvimento e empresas de inteligência artificial podem formar uma cadeia muito maior ao redor dos servidores.

Se isso acontecer, o Pecém poderá deixar de ser visto apenas como um complexo industrial e portuário.

Pode se tornar também um dos lugares onde a infraestrutura física da internet e da inteligência artificial latino-americana será construída.

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