A lógica do crescimento a qualquer custo e da queima de caixa como estratégia de sobrevivência encerrou. No mercado atual, com liquidez restrita, poucos IPOs e fundos mais seletivos, a capacidade de operar de forma sustentável com o capital levantado hoje pesa tanto quanto ou mais do que a narrativa de escala acelerada.
Esse foi o tom dominante no Pitch Reverso, realizado pelo Startups na sede da Databricks, em São Paulo, com apoio da Databricks e da Microsoft. Em vez de ouvir pitches, representantes de cinco gestoras e redes de investimento B Venture Capital (BVC), Headline, Honey Island, Caravela Capital e Urca Angels apresentaram suas teses e critérios de seleção.
Gabriel Alves, sócio da Headline, resumiu a mudança de forma direta: “O que a gente avisa para todo cara que a gente investe é: se prepare para ir até o final com o dinheiro que você vai pegar agora. Aquele negócio de gasta tudo rápido para crescer e pegar outro cheque daqui a 12 ou 18 meses não existe mais.” E completou: “A gente não investe em fogueira de caixa nem em ONG. Se o cara vende, por exemplo, uma água por R$ 0,15 que custa R$ 1,00 para ele produzir, não dá para saber se existe fit de mercado. A escassez vai te colocar numa situação onde você acha uma solução ou morre.”
O diagnóstico reflete o ciclo de retração do venture capital brasileiro desde 2022. Enquanto cheques maiores enfrentam cautela, os fundos early-stage observam um efeito colateral positivo: as startups fundadas nesse período de escassez tendem a ser mais disciplinadas e resilientes desde a origem.
A B Venture Capital, com portfólio de 50 empresas e atuação do pré-seed ao seed, concentra-se em soluções B2B de fintech e inteligência artificial. Isabela Berdu, partner do fundo, destacou a conexão com o ecossistema japonês (incluindo JICA e JETRO) e o programa Samurai, que destina até US$ 1 milhão a founders com histórico de exits.
A Caravela Capital, sediada em Curitiba, mantém tese agnóstica do pré-seed à Série A. Com R$ 40 milhões sob gestão no segundo fundo e captação do terceiro em andamento, a gestora se apoia em uma rede de mais de 200 famílias investidoras para acelerar a tração comercial das investidas. A diversificação setorial é tratada como ferramenta de gestão de risco em ambiente volátil.
Na Honey Island, os resultados da disciplina dos últimos anos já aparecem nos números. Hida Lambros, sócia, informou que mais da metade das 18 startups do veículo recente avançou para a Série A bem acima da média de 20% registrada por relatórios como o da LAVCA. “Como o ecossistema de venture capital opera em ciclos longos, vemos total visibilidade de liquidez para as saídas na janela dos próximos cinco a seis anos.”
No segmento de investidores anjo, a Urca Angels opera com 150 investidores e R$ 35 milhões já aportados em empresas como Mercado Recebível e Pluggy. O diferencial está na velocidade de decisão frequentemente concluída em duas semanas e no suporte operacional direto dos próprios membros.
Em resumo, o recado do Pitch Reverso é claro: o capital levantado hoje precisa ser suficiente para levar a empresa até um ponto de sustentabilidade ou de próxima rodada em condições muito mais exigentes. A escassez deixou de ser apenas contexto e passou a ser filtro de seleção.