OCDE, ODS, Inovação e Bioeconomia: quatro referências para pensar o desenvolvimento do território

|

Por Daniel Nunes

Desenvolvimento econômico, políticas públicas, inovação e bioeconomia costumam ser tratados como temas diferentes. Na prática, porém, eles estão profundamente conectados.

Para quem trabalha com desenvolvimento territorial, compreender essa conexão é cada vez mais importante.

Não basta pensar apenas em crescimento econômico. É necessário compreender os problemas do território, identificar oportunidades, utilizar dados, formular políticas públicas mais eficientes, estimular a inovação e encontrar formas de gerar desenvolvimento sem comprometer os recursos que sustentam a sociedade e a economia.

É nesse contexto que quatro referências ganham importância: OCDE, ODS, inovação e bioeconomia.

Cada uma oferece uma perspectiva diferente. Juntas, ajudam a construir uma visão mais completa sobre os desafios e as oportunidades do desenvolvimento contemporâneo.

O que a OCDE nos ensina sobre desenvolvimento?

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é uma organização internacional que produz estudos, indicadores, análises e recomendações sobre políticas públicas.

Seus trabalhos abrangem temas como:

  • desenvolvimento econômico;
  • educação;
  • inovação;
  • ciência e tecnologia;
  • emprego e renda;
  • empreendedorismo;
  • produtividade;
  • sustentabilidade;
  • governança;
  • desenvolvimento regional.

Mais do que uma instituição internacional, a OCDE representa uma forma de pensar políticas públicas baseada em evidências, dados, indicadores, comparação de experiências e avaliação de resultados.

A pergunta central é:

O que está funcionando, para quem, em quais condições e com quais resultados?

Essa lógica é fundamental para governos, instituições e equipes que trabalham com desenvolvimento. Uma política pública não deve ser avaliada apenas pela quantidade de ações realizadas.

  • Realizar um curso de capacitação é uma entrega.
  • Mas quantas pessoas concluíram?
  • Quantas conseguiram emprego?
  • Quantas aumentaram sua renda?
  • Quantas abriram ou melhoraram um negócio?
  • Quais públicos foram alcançados?

Essas perguntas nos ajudam a sair de uma lógica baseada apenas em atividades e avançar para uma lógica baseada em resultados e impacto.

O que são os ODS?

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) fazem parte da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas.

São 17 objetivos globais que estabelecem grandes desafios para a construção de sociedades mais inclusivas, prósperas e sustentáveis.

Entre eles estão:


Os ODS ajudam a responder a uma pergunta fundamental:

Que tipo de desenvolvimento queremos construir?

Para governos e instituições, os ODS podem funcionar como uma referência para conectar políticas, programas e projetos a desafios mais amplos.

Mas é importante evitar uma utilização meramente simbólica dos ODS.

Não basta inserir um ícone colorido em uma apresentação ou relatório.

O desafio real é compreender como uma determinada ação contribui concretamente para um objetivo de desenvolvimento.

Um programa de capacitação profissional, por exemplo, pode contribuir para a educação, o trabalho decente, a geração de renda e a redução das desigualdades. Já um programa de apoio ao empreendedor pode contribuir para o crescimento econômico, a geração de empregos e o desenvolvimento de comunidades.

A questão fundamental é compreender a relação entre a ação realizada e a transformação que se pretende produzir.

Onde entra a inovação?

A inovação é o elemento que permite transformar conhecimento, problemas e oportunidades em novas soluções.

E inovação não significa apenas criar uma tecnologia sofisticada.

Pode significar:

  • um novo produto;
  • um novo serviço;
  • um novo processo;
  • um novo modelo de negócio;
  • uma nova forma de organizar o trabalho;
  • uma nova política pública;
  • uma nova maneira de resolver um problema antigo.

Em muitos casos, inovar não significa criar algo completamente inédito.

Significa encontrar uma solução melhor para um problema existente.

Por isso, a inovação precisa estar conectada à realidade do território.

Um município pode ter grandes desafios relacionados ao emprego, à informalidade, à baixa produtividade, à falta de acesso a mercados ou à dificuldade de transformar conhecimento em negócios.

A inovação pode contribuir para enfrentar esses desafios.

Mas isso exige uma mudança de perspectiva.

Não devemos perguntar apenas:

Que tecnologia podemos utilizar?

Também precisamos perguntar:

Qual problema estamos tentando resolver?

Essa inversão é importante.

A tecnologia é um meio.

O problema real é o ponto de partida.

Bioeconomia: transformar potencial territorial em desenvolvimento

Em um território como a Amazônia, discutir desenvolvimento sem discutir bioeconomia significa ignorar uma das maiores vantagens estratégicas da região.

A bioeconomia envolve a utilização sustentável de recursos biológicos, conhecimentos, ciência, tecnologia e inovação para gerar produtos, serviços, negócios e oportunidades de desenvolvimento.

Ela pode envolver áreas como:

  • alimentos;
  • cosméticos;
  • fármacos;
  • biotecnologia;
  • agricultura;
  • manejo sustentável;
  • produtos da sociobiodiversidade;
  • turismo de natureza;
  • pesquisa científica;
  • tecnologias baseadas em recursos biológicos.

Mas é importante compreender que bioeconomia não significa simplesmente retirar recursos da floresta e comercializá-los. O grande desafio é aumentar o valor gerado no próprio território.

Em muitos casos, a região produz a matéria-prima, mas o maior valor econômico é capturado em outras etapas da cadeia.

A inovação pode ajudar a mudar essa realidade.

Conhecimento científico, propriedade intelectual, tecnologia, novos modelos de negócios e empreendedorismo podem contribuir para transformar recursos e conhecimentos locais em produtos e serviços de maior valor agregado.

Nesse sentido, a bioeconomia pode ser compreendida como uma oportunidade de conectar:

biodiversidade + conhecimento + ciência + tecnologia + inovação + empreendedorismo.

Essa conexão pode gerar desenvolvimento econômico sem abandonar a necessidade de conservação ambiental e valorização das comunidades e dos conhecimentos associados ao território.

A conexão entre OCDE, ODS, inovação e bioeconomia

Esses quatro temas podem ser compreendidos a partir de quatro perguntas:

1. O que precisa ser enfrentado?

Os ODS ajudam a identificar grandes desafios sociais, econômicos e ambientais.

2. Como podemos fazer melhor?

A OCDE oferece referências baseadas em dados, evidências, indicadores e boas práticas.

3. Que novas soluções podemos criar?

A inovação permite desenvolver novas formas de resolver problemas e aproveitar oportunidades.

4. Como podemos gerar desenvolvimento a partir das características do território?

A bioeconomia oferece uma perspectiva especialmente relevante para regiões com grande biodiversidade e conhecimento associado aos recursos naturais.

De forma resumida:

Os ODS ajudam a definir os grandes desafios.
A OCDE ajuda a pensar políticas melhores.
A inovação ajuda a criar novas soluções.
A bioeconomia ajuda a transformar potencial territorial em desenvolvimento sustentável.

O desenvolvimento precisa ser pensado de forma sistêmica

Nenhum programa ou secretaria, isoladamente, é capaz de produzir desenvolvimento.

O desenvolvimento depende da articulação entre:

  • educação;
  • qualificação profissional;
  • empreendedorismo;
  • inovação;
  • ciência e tecnologia;
  • infraestrutura;
  • crédito;
  • empresas;
  • universidades;
  • instituições de pesquisa;
  • governo;
  • sociedade civil.

Essa visão sistêmica é fundamental.

Um curso de capacitação pode estar relacionado à educação, mas também ao trabalho, à renda e à redução das desigualdades. Um programa de apoio ao empreendedor pode estar relacionado à formalização, mas também à geração de empregos, à inovação e ao fortalecimento da economia local.

Uma pesquisa científica pode gerar conhecimento, mas também pode originar uma tecnologia, uma patente, uma startup, um produto ou uma nova solução para um problema social.

Um produto da biodiversidade pode ser comercializado como matéria-prima ou pode ser transformado em uma solução de maior valor agregado por meio da ciência, da tecnologia e da inovação.

O desenvolvimento acontece justamente quando conseguimos conectar esses elementos.

O que isso significa para quem trabalha no setor público?

Essa discussão não é apenas teórica.

Ela tem consequências práticas para o planejamento e para a execução das políticas públicas.

Uma equipe que trabalha com desenvolvimento econômico precisa aprender a fazer perguntas mais estratégicas:

  • Qual problema estamos tentando resolver?
  • Quem é o público prioritário?
  • Quais são as causas desse problema?
  • Que soluções podem ser desenvolvidas?
  • Quais parceiros podem contribuir?
  • Quais resultados esperamos alcançar?
  • Como vamos medir esses resultados?
  • O que precisa ser ajustado ao longo do caminho?

Essa lógica exige uma mudança importante na cultura de trabalho.

É preciso sair de uma visão baseada apenas na execução de atividades e avançar para uma cultura de planejamento, dados, avaliação e melhoria contínua.

Não basta dizer:

“Nós realizamos.”

Também precisamos perguntar:

“O que mudou?”

O papel do desenvolvimento econômico no território

O desenvolvimento econômico contemporâneo não pode ser reduzido à atração de empresas ou ao aumento de indicadores econômicos.

Ele também envolve a capacidade de:

  • gerar oportunidades;
  • aumentar a empregabilidade;
  • estimular o empreendedorismo;
  • apoiar pequenos negócios;
  • promover inovação;
  • desenvolver competências;
  • fortalecer cadeias produtivas;
  • agregar valor aos recursos locais;
  • reduzir desigualdades;
  • ampliar a participação das pessoas na economia.

Nesse contexto, programas de capacitação, apoio ao empreendedor, atendimento ao MEI, estímulo à inovação e desenvolvimento territorial devem ser vistos como partes de uma estratégia maior.

Cada ação precisa estar conectada a uma visão de futuro.

Para a gestão pública 

A gestão pública precisa atuar com uma visão que vá além da execução operacional. É necessário compreender o território, seus problemas, suas potencialidades e suas oportunidades. É necessário trabalhar com dados. É necessário ouvir a população e os empreendedores. É necessário construir parcerias. É necessário conectar diferentes áreas. E é necessário acompanhar os resultados.

O trabalho cotidiano pode envolver inscrições, atendimentos, cursos, eventos, planilhas, encaminhamentos e parcerias.

Mas, por trás de cada uma dessas atividades, existe uma pergunta maior:

Que transformação essa ação está produzindo na vida das pessoas e na economia do município?

Essa pergunta precisa orientar o planejamento.

Porque desenvolvimento não é apenas fazer mais.

É fazer melhor.

É fazer com propósito.

É aprender com os resultados.

E é construir soluções cada vez mais conectadas às necessidades reais do território.

Uma agenda de desenvolvimento para a Amazônia

A Amazônia possui desafios enormes.

Mas também possui ativos estratégicos únicos.

  • Biodiversidade.
  • Conhecimentos tradicionais.
  • Recursos naturais.
  • Instituições de ensino e pesquisa.
  • Empreendedores.
  • Empresas.
  • Talentos.
  • Cultura.
  • Território.

O grande desafio é transformar esse potencial em desenvolvimento econômico e social de forma sustentável.

Isso exige superar uma visão baseada apenas na exportação de matérias-primas e avançar para uma economia capaz de gerar mais conhecimento, tecnologia, inovação e valor dentro do próprio território.

A bioeconomia pode ser uma das grandes oportunidades para isso.

Mas ela dependerá de investimentos em ciência, tecnologia, inovação, educação, empreendedorismo, infraestrutura e políticas públicas.

Nenhum desses elementos funciona isoladamente.

Conclusão

OCDE, ODS, inovação e bioeconomia não são temas desconectados.

Eles fazem parte de uma mesma discussão: como construir um desenvolvimento mais inteligente, sustentável, inclusivo e conectado às características de cada território.

A OCDE nos ensina a valorizar dados, evidências, indicadores e avaliação.

Os ODS nos ajudam a compreender os grandes desafios que precisam ser enfrentados.

A inovação nos oferece capacidade de criar novas soluções.

A bioeconomia nos mostra como transformar biodiversidade, conhecimento e recursos biológicos em oportunidades de desenvolvimento sustentável.

Para quem trabalha com políticas públicas e desenvolvimento econômico, compreender essa conexão é fundamental.

Porque o futuro dos territórios não será construído apenas com mais recursos.

Será construído com melhores decisões, maior capacidade de inovação, cooperação e uma visão clara de onde queremos chegar.

E talvez essa seja a principal pergunta que precisamos fazer todos os dias:

Estamos apenas executando atividades ou estamos, de fato, construindo desenvolvimento?

Essa diferença muda completamente a forma de planejar, trabalhar e avaliar os resultados.

Desenvolvimento não se mede apenas pelo número de ações realizadas.

Desenvolvimento se mede pelas transformações que essas ações conseguem produzir.

Leitura obrigatória

🚀 Pronto para escalar sua startup?

Validação, modelo de negócio, captação e governança: conheça o acompanhamento estratégico para founders.

Estratégia, inovação e crescimento sustentável para startups da Amazônia.