O perigo de aceitar o improviso como sistema

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Existe uma diferença silenciosa entre resolver um problema e aprender a conviver com ele.

Todo mundo já viveu algo parecido. Você coloca um carregador numa tomada que só funciona se o plug ficar inclinado. Descobre o “jeito certo” de apoiar e continua usando por semanas — às vezes meses. No início aquilo incomoda. Depois vira rotina. Até que chega um momento em que você nem percebe mais que existe um problema.

Esse talvez seja um dos mecanismos mais perigosos dentro de empresas, projetos e até na vida pessoal: transformar exceção em processo.

Não porque alguém decidiu que seria assim, mas porque ninguém mais questionou.

No ambiente de trabalho isso aparece o tempo inteiro. Planilhas paralelas para corrigir falhas do sistema. Aprovações duplicadas porque “sempre foi desse jeito”. Pessoas que viram verdadeiras extensões humanas de processos mal construídos.

E o curioso é que, quanto mais tempo uma solução improvisada sobrevive, mais ela passa a parecer inteligente.

Só que improviso repetido não vira estratégia. Vira dependência.

Pensa em um restaurante que começou anotando pedidos no papel porque o sistema caiu um dia. Funcionou. No dia seguinte repetiram. Depois descobriram que dava para continuar operando assim.

Meses depois, contrataram mais gente, abriram novas unidades e continuaram usando papel porque “é mais rápido”.

Até que alguém percebe que pedidos se perdem, erros aumentam e ninguém consegue medir desempenho.

Nesse ponto aparece a pergunta que quase sempre chega tarde:

Em que momento nós paramos de resolver um problema temporário e começamos a desenhar o negócio em volta dele?

O mais interessante é que mudanças raramente começam com grandes revoluções.

Normalmente começam com alguém fazendo uma pergunta simples:

“Se fôssemos criar isso hoje, faríamos desse mesmo jeito?”

Essa pergunta incomoda porque desmonta uma ilusão muito confortável: a ideia de que aquilo que existe merece existir.

Nem sempre merece.

Algumas coisas continuam apenas porque ninguém teve energia suficiente para interromper o automático.

Questionar não significa rejeitar tradição ou mudar por vaidade. Significa verificar se aquilo que um dia fez sentido ainda faz.

Porque o risco não está em errar.

O risco está em se acostumar tanto com o erro que ele passa a parecer o jeito certo de fazer as coisas.

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