Quando publiquei sobre o anúncio do novo data center para IA no Pará, apareceram comentários em uma linha parecida:
“Vai aumentar conta de luz.”
“Quase não gera emprego.”
“Vai consumir recurso e deixar pouco retorno.”
“Só vai servir para treinar IA para big tech.”
E sinceramente? Essas preocupações não deveriam ser descartadas.
Porque existe um histórico global que alimenta esse ceticismo: grandes projetos chegam prometendo desenvolvimento, mas às vezes entregam menos empregos do que o imaginado e concentram boa parte do valor fora do território.
Só que existe um erro igualmente perigoso. Assumir que qualquer infraestrutura digital é automaticamente exploração.
O problema não é o data center
- Um data center é infraestrutura.
- Da mesma forma que porto, estrada, rede elétrica ou fibra óptica.
- Infraestrutura sozinha não cria prosperidade.
- Ela cria capacidade.
- A pergunta nunca deveria ser:
- “Data center é bom ou ruim?”
A pergunta deveria ser:
Quem vai capturar o valor gerado por ele?
Porque existem dois cenários completamente diferentes.
Cenário 1: o Pará vira apenas hospedeiro
A empresa instala servidores.
Consome energia.
Contrata durante a construção.
Depois opera com equipe enxuta.
Grande parte do processamento atende empresas de fora.
Conhecimento, receita e desenvolvimento tecnológico ficam concentrados em outros polos.
Nesse cenário, o receio da população faz sentido.
Você aumenta infraestrutura sem construir ecossistema.
Cenário 2: o Pará usa o investimento como plataforma
Agora imagine outro caminho.
Além da infraestrutura física, surgem:
- programas de formação em computação, dados e IA;
- conexão com universidades e centros de pesquisa;
- aceleração de startups locais;
- contratação de fornecedores regionais;
- melhoria da conectividade;
- atração de empresas complementares;
- geração de conhecimento que permanece aqui.
Nesse cenário, o data center deixa de ser apenas um prédio. Ele vira uma peça de um sistema econômico maior.
O erro histórico que precisamos evitar
A Amazônia conhece esse roteiro.
Extrair recurso aqui.
Processar valor em outro lugar.
Deixar pouco desenvolvimento local.
A pergunta agora é se vamos repetir esse modelo na economia digital.
Porque energia barata e território disponível não bastam.
Se não houver política de inovação, formação e encadeamento econômico, continuaremos exportando capacidade e importando valor.
A discussão que realmente importa
No fim, talvez a pergunta nem seja se devemos receber um data center.
A pergunta é: o que precisa acontecer para que esse investimento deixe riqueza aqui e não apenas infraestrutura?
Porque infraestrutura digital virou parte da economia moderna assim como energia, logística e conectividade.
O erro não é atrair investimento.
O erro é acreditar que investimento, sozinho, gera desenvolvimento.
Se o Pará entrar nessa agenda apenas oferecendo energia, terreno e incentivos, corremos o risco de repetir um modelo conhecido: exportamos capacidade e importamos valor.
Mas se usarmos esse momento para formar pessoas, fortalecer universidades, criar empresas locais e construir competências em tecnologia, IA e serviços digitais, o resultado pode ser diferente.
Daqui a alguns anos, ninguém vai medir esse projeto pelo tamanho do prédio ou pela quantidade de servidores.
A pergunta será outra:
O Pará se tornou protagonista da nova economia digital ou apenas hospedou a infraestrutura dela?
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