Instagram bloqueia perfis Lgbtqia+ e gera polêmica no dia de luta contra a Lgbtfobia

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Sebastien Bozon/AFP
Sebastien Bozon/AFP

No Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, celebrado entre 16 e 17 de maio, o Instagram, plataforma controlada pela Meta, foi alvo de severas críticas após uma série de bloqueios e restrições a perfis e criadores de conteúdo LGBTQIA+. A denúncia, feita pela entidade de monitoramento de discursos de ódio Sleeping Giants Brasil, acendeu um alerta sobre a moderação de conteúdo nas redes sociais e o impacto dessas políticas em comunidades historicamente marginalizadas. Embora parte das contas tenha sido restabelecida após a intervenção da entidade e da imprensa, o incidente levantou questões urgentes sobre a segurança e a liberdade de expressão no ambiente digital.

Ação do Sleeping Giants e a Repercussão Imediata

A Sleeping Giants Brasil identificou a remoção de pelo menos cinco páginas dedicadas à temática LGBTQIA+, que juntas somam mais de 1,7 milhão de seguidores. Entre os perfis afetados estavam Pheeno (200 mil seguidores), Universo LGBTI (500 mil seguidores), Ezatamentchy (500 mil seguidores), GayBlogBr (200 mil seguidores) e Comunidades LGBTQIA (330 mil seguidores). A organização agiu prontamente, notificando extrajudicialmente a Meta na segunda-feira, 18 de maio, exigindo o restabelecimento das contas em até 48 horas ou a apresentação de justificativas claras para os bloqueios.

A pressão surtiu efeito. Na terça-feira, 19 de maio, a Meta restabeleceu parte dos perfis após ser contatada pela Folha de S.Paulo. No entanto, a big tech optou por não emitir qualquer comentário oficial sobre o ocorrido, mantendo silêncio sobre as razões dos bloqueios. O perfil UniversoLGBTI, por exemplo, ainda não havia sido normalizado na quarta-feira, indicando que a resolução não foi completa ou imediata para todos os afetados.

O Impacto para Criadores de Conteúdo e a Fragilidade Digital

A experiência de criadores de conteúdo como Vinícius Yamada, de 44 anos, responsável pela página Gay Blog BR, ilustra a dimensão do problema. Com mais de 212 mil seguidores, o perfil, que publica conteúdo sobre direitos humanos, sexualidade e representatividade, foi removido de forma inesperada. Yamada relatou que a plataforma não informou qual regra teria sido violada, solicitando apenas um reconhecimento facial antes de enviar um e-mail confirmando a desabilitação.

Para Yamada, a restauração de seu perfil na terça-feira, acompanhada de um comunicado genérico da Meta, não apaga a sensação de vulnerabilidade. Ele expressou a frustração comum a muitos ativistas e criadores de conteúdo LGBTQIA+: "Durante muito tempo, imaginou-se que a internet seria um espaço relativamente mais seguro para comunidades historicamente marginalizadas, mas, por vezes, a sensação é a de que seguimos vivendo em becos e zonas de fragilidade." Essa declaração ressalta a importância de um ambiente digital que promova a inclusão e a segurança, em vez de gerar incertezas.

Políticas de Moderação da Meta sob Escrutínio

O incidente não é isolado e ocorre em um contexto de crescentes críticas às políticas de moderação da Meta. A notificação do Sleeping Giants Brasil faz referência a um inquérito civil aberto pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2025, que investiga os possíveis impactos das mudanças nas políticas da Meta sobre a população LGBTQIA+. Essas alterações, adotadas em janeiro de 2025, passaram a permitir publicações que associam orientação sexual e identidade de gênero a transtornos mentais, uma decisão que gerou grande preocupação entre ativistas e defensores dos direitos humanos.

Apesar do restabelecimento de algumas páginas, a Sleeping Giants enfatizou que "o retorno das páginas ao ar não elimina a gravidade do que aconteceu". A entidade cobra da Meta a adoção de medidas concretas para evitar que situações semelhantes se repitam, garantindo que a plataforma seja um espaço seguro e respeitoso para todas as comunidades, especialmente as que já enfrentam preconceito e discriminação fora do ambiente digital. A transparência e a responsabilidade na aplicação das regras de moderação são cruciais para a credibilidade das big techs.

A Luta Contra a LGBTfobia no Ambiente Digital

O Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia é uma data de extrema importância para a conscientização e o combate à discriminação. O bloqueio de perfis dedicados a essa causa justamente nesse período simbólico envia uma mensagem preocupante sobre o compromisso das plataformas com a diversidade e a inclusão. A internet, que deveria ser um vetor de empoderamento e conexão para a comunidade LGBTQIA+, pode se tornar um espaço de censura e exclusão quando as políticas de moderação falham ou são aplicadas de forma inconsistente.

A sociedade civil e as entidades de direitos humanos continuam atentas, exigindo que as grandes empresas de tecnologia assumam sua responsabilidade social. É fundamental que as plataformas digitais não apenas restabeleçam contas, mas também revisem e aprimorem suas diretrizes para assegurar que a liberdade de expressão e a representatividade de grupos minoritários sejam protegidas, e que a luta contra a LGBTfobia encontre eco e apoio, e não barreiras, no vasto universo online. Para mais informações sobre as políticas de moderação de conteúdo em plataformas digitais, consulte fontes como o Instituto Palavra Aberta.

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Fonte: redir.folha.com.br

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