Lembro com clareza de como o mundo era diferente há vinte anos e como, ao mesmo tempo, parecia exatamente o mesmo. O curioso sobre o tempo é que ele nunca dá avisos claros. Quando estamos no meio de uma transformação, tudo soa gradual, quase imperceptível. Só quando olhamos pelo retrovisor é que vemos o abismo que atravessamos.
Em 2006, muitas coisas que hoje nos parecem naturais não existiam. Não havia iPhone, Instagram ou TikTok. YouTube ainda era novidade, o Facebook estava restrito a universidades, e o Twitter mal começava. WhatsApp não existia; chamar um carro pelo celular parecia uma ideia absurda; dividir uma casa com desconhecidos via app soaria como maluquice. Trabalhar por vídeo com pessoas de outras cidades? Quase ficção científica. E dirigir um carro sem motorista? Roteiro de filme.
A música era baixada; não havia Spotify. Assistíamos a séries de DVDs; a Netflix entregava discos pelo correio. A Amazon era, para a maioria, uma livraria online. Ter 1 GB de e-mail gratuito soava generoso. Google Maps não dominava rotas; LinkedIn não importava na vida da maioria; bitcoin nem sequer era um conceito; e a Tesla era apenas uma startup lutando para existir.
Hoje essas empresas e serviços são parte da infraestrutura da vida. Parecem inevitáveis, como se sempre tivessem estado aqui quando, na verdade, nasceram e cresceram silenciosamente. Esse é um erro clássico da nossa mente: achar que o futuro chega com um sinal óbvio. Ele não chega assim. O futuro se mistura ao presente. Surge pequeno, vira moda, transforma-se em nicho, e então de repente é a base de como vivemos.
Enquanto isso acontecia, ouvi muito a mesma frase: “isso nunca vai pegar”. As pessoas não desacreditam por maldade ou burrice; desacreditam porque usam o presente como régua permanente da realidade. E o presente é um péssimo analista de longo prazo. Nosso cérebro está calibrado para detectar rupturas rápidas, não crescimentos exponenciais que se manifestam como um fio apenas mais longo a cada dia.
Hoje vivemos isso de novo, desta vez com inteligência artificial. Discutimos IA com a mesma mistura de curiosidade, ironia e subestimação com que discutíamos redes sociais duas décadas atrás. Parece cedo, desorganizado, exagerado. Mas quase toda transformação histórica começou exatamente assim: pequena, confusa, subestimada.
Tenho a sensação e a esperança de que, em 2046, alguém vai olhar para 2026 do mesmo jeito que hoje olhamos para 2006: “Como não vimos?” A verdade é que estávamos vendo, só que de dentro. Estávamos pisando no terremoto.
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Você está sentindo alguma mudança nesse nível aí onde mora ou no seu trabalho? Gostaria de ouvir exemplos reais dos leitores e das suas experiências para montar um retrato mais concreto daqui a alguns anos.
