Durante 14 anos, o dinheiro foi quase de graça nos Estados Unidos.
ZIRP é a sigla para Zero Interest Rate Policy a política de juros zero adotada pelo Federal Reserve depois da crise financeira de 2008. A ideia era simples: baratear o crédito, estimular o consumo e fazer a economia girar. Funcionou. O problema é que durou tempo demais.
De 2008 a 2022, os EUA mantiveram a taxa de juros em zero ou próximo disso. Quatorze anos. Uma geração inteira de empreendedores nunca viu outra realidade.
O efeito cascata no venture capital
Com investimentos tradicionais pagando quase nada, quem tinha capital precisava procurar retorno em outro lugar. Fundos de pensão, family offices e endowments foram parar no venture capital. Em 2021, os fundos de VC captaram volumes recordes. LPs despejavam dinheiro em private equity como se não houvesse amanhã. Fundos levantavam novos veículos em 12 a 24 meses e alocavam rápido.
Para founders e growth hackers, isso criou uma realidade distorcida em três frentes.
Primeiro, unit economics negativos não eram problema desde que o topline crescesse 300% ao ano, a Series A estava garantida. Segundo, burn rate virou sinal de status. Gastar muito significava "investir pesado em crescimento". Ninguém perguntava se aquele gasto voltava. Terceiro, aquisição era tudo, retenção era detalhe. O funil era uma peneira: jogava dinheiro em cima e comemorava o que caía embaixo.
A Fortune cunhou um termo para essa geração: ZIRBs. Zero Interest Rate Babies. Startups que nasceram e cresceram numa realidade que simplesmente não existe mais.
E então o ZIRP acabou
Em 2022, a inflação nos EUA passou de 8%. O Federal Reserve subiu os juros de quase zero para quase 5% em pouco mais de um ano. O dinheiro deixou de ser grátis da noite para o dia.
O efeito dominó foi imediato.
Os retornos "sem risco" voltaram. Bonds passaram a pagar 4 a 5%, o que tornou a equação risco-retorno das startups muito menos atraente. LPs recalibraram as expectativas: se vamos assumir risco, o prêmio precisa compensar de verdade. A alocação de capital encolheu. Fundos do vintage 2022 deployaram apenas 43% do capital em 24 meses, contra 60% dos fundos do vintage 2020. Ainda existe dinheiro, mas o apetite por risco diminuiu. Até VC toma mounjaro.
Os valuations despencaram. A Aventis Advisors mostra que a mediana de EV/Revenue em SaaS público caiu para 3,4x em março de 2026. Aquele prêmio por ser "alguma-coisa-tech" simplesmente sumiu.
No Brasil, a conta foi ainda mais salgada
Enquanto o Fed subia os juros nos EUA, o Brasil já convivia com a Selic na casa dos 15% ao ano. Com renda fixa pagando dois dígitos, o LP brasileiro tem razões concretas para questionar se vale tomar risco em startup quando o Tesouro paga tudo isso sem dar trabalho.
O resultado aparece nos números. O número de Corporate Venture Capitals ativos no Brasil caiu de mais de 100 para 42 em 12 meses. As rodadas caíram de 135 para 66 no mesmo período.
Mas e esse é um "mas" importante quem sobreviveu, adaptou
As startups que atravessaram o ciclo emergiu com custos controlados, product-market fit ajustado e governança mais rígida. A seleção natural já aconteceu.
A ACE Ventures entrevistou os principais VCs do Brasil e mapeou as três métricas que mais importam para investidores em 2025: eficiência operacional, eficiência de capital e unit economics.
Não TAM. Não GMV. Não quantidade de usuários.
Eficiência.
O mercado mudou os critérios. A pergunta agora não é mais "quão grande pode ficar?" é "você consegue crescer sem sangrar?"
E a resposta para essa pergunta vai separar as próximas rodadas das que não vão acontecer.
