
A dependência crítica no Oriente Médio
Em países da Península Arábica, a ausência de rios permanentes elevou a dessalinização ao status de infraestrutura vital. No Catar, por exemplo, a tecnologia é responsável por 77% de toda a água doce consumida e por impressionantes 99% da água potável disponível. Essa dependência reflete uma realidade regional: o Oriente Médio abriga apenas 6% da população mundial, mas concentra mais de 27% das 17.910 instalações de dessalinização em operação no planeta, segundo dados de um estudo publicado em 2026 na revista npj Clean Water. O crescimento do setor é acelerado pela necessidade de atender tanto o consumo humano quanto as demandas de indústrias, agricultura e centros de dados. A tendência é de escala: o tamanho médio das usinas atuais é aproximadamente dez vezes maior do que o registrado há 15 anos. Um exemplo emblemático é a usina de Ras Al-Khair, na Arábia Saudita, que produz mais de 1 milhão de metros cúbicos de água doce por dia, exigindo uma capacidade instalada de 2,4 gigawatts para operar.O cenário brasileiro e a segurança hídrica localizada
No Brasil, a aplicação da tecnologia segue uma lógica distinta da observada no Golfo Pérsico. Enquanto no Oriente Médio as megainstalações sustentam metrópoles inteiras, no território brasileiro a dessalinização atua principalmente como uma ferramenta de segurança hídrica para comunidades isoladas no Semiárido. Nessas regiões, onde a água subterrânea apresenta altos teores de salinidade, a tecnologia é essencial para a sobrevivência. O Programa Água Doce, iniciativa do governo federal, ilustra essa estratégia de descentralização. Até 2024, o projeto já havia viabilizado a instalação de 1.068 sistemas em 298 municípios, com uma capacidade produtiva de 4,2 milhões de litros de água por dia. Embora a escala seja modesta diante das gigantescas usinas sauditas, o impacto social é profundo, garantindo acesso à água potável em áreas historicamente castigadas pela seca.Desafios energéticos e projeções futuras
O futuro da dessalinização está intrinsecamente ligado ao consumo de eletricidade. O setor projeta um investimento superior a 25 bilhões de dólares entre 2024 e 2028 no Oriente Médio, visando expandir a capacidade instalada em mais de 40%. Contudo, essa expansão impõe uma pressão significativa sobre as redes elétricas globais. Estimativas da Agência Internacional de Energia indicam que a dessalinização pode adicionar 190 terawatts-hora à demanda global de eletricidade até 2035 — um volume equivalente ao consumo de cerca de 60 milhões de residências. O desafio para os próximos anos será conciliar a necessidade urgente por água potável com a transição para fontes de energia mais sustentáveis, evitando que a solução para a escassez hídrica agrave a crise climática por meio do aumento das emissões de carbono. No portal Daniel Nunes, acompanhamos de perto como a inovação tecnológica e as políticas públicas moldam o futuro da infraestrutura global. Continue conosco para entender os desdobramentos da economia, da tecnologia e da sustentabilidade que impactam diretamente o seu cotidiano e o cenário mundial.Fonte: mittechreview.com.br