Na última sexta-feira (17/04), participei da reunião (ACES - Santarém) sobre o Projeto Executivo do Anel Viário de Santarém a obra que vai conectar a Área Portuária 2, a BR-163 e a PA-370.
Saí de lá pensando numa coisa simples e frequentemente ignorada nos debates sobre inovação regional: infraestrutura é plataforma. A China já faz isso.
O que é o Anel Viário, afinal
O projeto conecta três pontos críticos da malha logística de Santarém. A Área Portuária 2 é a porta de entrada e saída de commodities e insumos pelo Rio Amazonas. A BR-163 é o principal eixo rodoviário que liga o oeste do Pará ao Centro-Sul do país. A PA-370 conecta Santarém ao Planalto Santareno e às rotas para Alter do Chão e o interior.
Unir esses três pontos não é só uma decisão de engenharia. É uma decisão econômica.
Logística é competitividade disfarçada
Existe uma tendência nos ecossistemas de inovação de tratar infraestrutura física como assunto de outra pasta engenharia, governo, urbanismo. Inovação seria outra coisa: apps, startups, hubs, aceleradoras.
Esse recorte é equivocado.
Custo logístico é um dos principais fatores que determinam se uma empresa local consegue competir com concorrentes de outras regiões. No Pará, esse custo é estruturalmente alto. Distâncias longas, malha viária precária e gargalos de escoamento encarecem qualquer operação da mercearia ao exportador de soja.
Quando uma obra reduz o tempo de deslocamento entre o porto e a rodovia federal, ela está, na prática, melhorando a margem operacional de centenas de empresas que nunca vão aparecer em nenhum ranking de startups. Mas que empregam, faturam e sustentam a economia local.
Infraestrutura abre espaço para novos modelos de negócio
O efeito mais interessante de grandes obras viárias não é o imediato é o que vem depois.
Anel viário bem planejado tende a valorizar áreas ao longo do traçado, atrair novos empreendimentos, reorganizar fluxos comerciais e criar oportunidades para setores que dependem de mobilidade: logística, distribuição, comércio atacadista, indústria leve, tecnologia aplicada ao agronegócio.
Em cidades como Santarém, onde o setor de tecnologia ainda é incipiente, esse tipo de obra cria o ambiente que precede a inovação não o contrário. Antes de falar em hub de inovação, é preciso garantir que o caminhão consiga sair do porto sem travar no cruzamento da Av. Tapajós.
O que falta nos debates sobre desenvolvimento regional
A narrativa dominante sobre inovação no interior do Brasil tende a pular etapas. Fala-se em ecossistema, em startups de impacto, em bioeconomia digital e pouco se fala em pavimentação, saneamento, conectividade de banda larga e logística de última milha.
Não é que esses temas sejam incompatíveis. É que a sequência importa.
Infraestrutura básica bem executada é o que torna um território atrativo para investimento privado, o que por sua vez cria demanda por soluções tecnológicas, o que por sua vez alimenta um ecossistema de inovação com chances reais de sobreviver.
Pular essa sequência e tentar construir o ecossistema antes da base é o modelo que explica boa parte dos hubs de inovação que existem no papel e não no mundo real.
Inovar também é construir caminhos no sentido literal
O Anel Viário de Santarém não é pauta de tecnologia. Mas é pauta de quem pensa seriamente no desenvolvimento econômico da região.
Quando o projeto sair do executivo para a execução, vai movimentar contratos, gerar empregos, reorganizar fluxos e, se bem aproveitado, abrir vetores de crescimento para setores que hoje operam abaixo do potencial por conta de gargalos logísticos.
Acompanhar esse processo de perto e pensar estrategicamente no que vem depois da obra é exatamente o tipo de exercício que falta nos debates sobre inovação em cidades médias da Amazônia.
