Num mercado de áudio dominado por marcas estrangeiras como JBL, Sony e Beats, uma startup brasileira fundada em 2016 por Leonardo Drummond e Eduarda Vieira vem conquistando espaço com uma proposta diferente: fones de ouvido modulares que combatem a obsolescência programada. Esta é a história da Kuba Audio, empresa que já vendeu mais de 40 mil fones e promete revolucionar a relação das pessoas com seus equipamentos de áudio.
Da paixão à startup
Leonardo Drummond cursou Design de Produto na PUC-Rio, universidade focada em Design Thinking, metodologia que coloca a experiência das pessoas no centro do desenvolvimento de produtos. A conexão pessoal com música vem desde a infância, quando ainda criança já percebia as diferenças na qualidade sonora dos equipamentos disponíveis no mercado.
Essa paixão transformou-se em referência nacional. Leonardo Drummond é reconhecido no universo do áudio brasileiro, com mais de 35 milhões de visualizações e 310 mil inscritos no canal Mind the Headphone no YouTube, plataforma onde avalia equipamentos de áudio há mais de 10 anos. Foi justamente essa expertise acumulada que revelou um problema de mercado: a dificuldade em encontrar produtos que aliassem qualidade sonora, durabilidade e manutenibilidade.
O diferencial modular
A grande inovação da Kuba está na modularidade. Os fones são desenvolvidos com componentes que podem ser substituídos individualmente cabos, almofadas, conchas e até o arco bluetooth. "Todo mundo já teve um fone de ouvido cujo cabo ficou com mal contato e teve que jogar o produto fora. Não conseguir trocar o cabo em um fone é como ter um carro em que não pode mudar o pneu", explica Leonardo.
Esse conceito permite que o consumidor renove apenas a parte danificada, estendendo a vida útil do produto por anos. A empresa oferece peças substituíveis com até 5 anos de garantia, posicionamento praticamente inédito no mercado brasileiro de áudio pessoal. Os fones da linha Disco ainda contam com um seletor analógico de graves nas conchas, permitindo que o usuário ajuste a sonoridade conforme sua preferência ou situação de uso.
Produção nacional e sustentabilidade
A Kuba depende de importação para cerca de 20% dos componentes, como cabos e alto-falantes, mas desenvolve e monta o restante no país. Os headphones são fabricados artesanalmente em lotes limitados no Espírito Santo, garantindo controle de qualidade rigoroso em cada unidade.
O uso de madeiras brasileiras, como o tauari, nos arcos dos headphones confere identidade visual única aos produtos e reforça o compromisso com uma pegada mais sustentável. A filosofia de combate à obsolescência programada não é apenas discurso: ao permitir upgrades e manutenção prolongada, a Kuba reduz significativamente o descarte de eletrônicos.
Trajetória de crescimento e investimentos
A primeira rodada de investimento aconteceu em 2017, quando a empresa recebeu R$ 40 mil através de parceria da FIRJAN com o Instituto Gênesis da PUC, com investimento dos empreendedores Camila Farani, Luiz Brownie e Carlos Junior. Em 2018, a Kuba participou do programa Shark Tank e recebeu aporte de R$ 140 mil de João Appolinário, da Polishop.
O crescimento foi consistente. A startup aumentou o faturamento de R$ 350 mil em 2018 para R$ 650 mil em 2019, saltando para R$ 2,4 milhões em 2020 e atingindo R$ 3,4 milhões em 2021. Em 2024, a empresa bateu a marca de R$ 5,2 milhões em faturamento e deve fechar 2025 com receita acima de R$ 7 milhões.
Em 2023, a Kuba recebeu aporte de R$ 2 milhões do Fundo Desenvolve Amazônia para expandir operações na América Latina e Europa. Atualmente, a empresa está em nova rodada de captação via crowdfunding na EqSeed, com meta de levantar R$ 2 milhões para destravar crescimento em 2026.
Democratização do áudio de qualidade
Nos últimos anos, a Kuba ampliou sua estratégia para sair da bolha dos audiófilos e alcançar o público geral. O fone bluetooth Kuba Mali 2, lançado em pré-venda em outubro de 2024 por R$ 300, já soma cerca de 9 mil unidades vendidas em poucos meses.
Paralelamente, a empresa mantém o desenvolvimento de produtos premium. A estratégia passa pela expansão da linha de headphones fabricados localmente, com foco em modelos mais premium, inclusive um fone na faixa dos R$ 10 mil para competir com marcas internacionais de altíssimo padrão.
Mercado corporativo em expansão
A empresa vem acelerando crescimento no mercado B2B, oferecendo suporte premium e fones de ouvido sob medida para empresas, com adesão acima do esperado, superando recordes históricos de vendas já no primeiro trimestre de operação. Conglomerados de mídia e operações corporativas já utilizam os equipamentos Kuba em seus ambientes profissionais.
Desafios da produção nacional
Segundo Leonardo Drummond, produzir hardware no Brasil é "empreender no modo hard", com custos altos, incertezas no processo de importação e limitações de fornecedores locais. Um dos grandes desafios enfrentados pela empresa é lidar com um público que desconhece o mercado de fones de ouvido e tem percepção de valor distorcida, comparando equipamentos de áudio premium com fones genéricos.
Apesar das dificuldades, a fabricação nacional permite maior controle sobre qualidade, desenvolvimento próximo ao cliente e redução de dependência externa. A meta é alcançar mais de 90% de componentes fabricados localmente nos próximos anos.
Visão de futuro
Com mais de 40 mil fones vendidos desde a fundação, a Kuba Audio consolida-se como case de inovação e empreendedorismo brasileiro. A empresa não busca apenas competir com gigantes do setor, mas transformar a relação das pessoas com equipamentos de áudio oferecendo produtos que evoluem junto com o usuário, em vez de tornarem-se descartáveis após poucos anos.
Para Leonardo Drummond, o produto vai além do aspecto técnico: "Nosso produto é mais do que um equipamento de som. Ele é uma ponte entre a música e a vida de quem a escuta". Em um mercado globalizado e padronizado, a Kuba prova que é possível criar alternativas locais, sustentáveis e de alta qualidade mesmo em um dos setores mais desafiadores para produção nacional.
