Em 2023, o Brasil teve a chance de dar um salto real rumo à independência espacial. A Finep, agência federal responsável por fomentar inovação tecnológica, apostou R$ 180 milhões no desenvolvimento do Montenegro MKI um veículo lançador de pequeno porte que colocaria o país no seleto grupo de nações capazes de lançar seus próprios satélites. Não era fantasia: havia empresa consolidada no comando, startups promissoras no consórcio e expertise técnica comprovada. O projeto representava soberania tecnológica, empregos qualificados e redução brutal da dependência de foguetes estrangeiros caríssimos.
Dois anos depois, em agosto de 2025, o projeto foi cancelado. Não por dificuldade técnica. Não por mudança de prioridade estratégica. Mas por algo muito mais prosaico e deprimente: R$ 24,5 milhões simplesmente sumiram sem rastro.
A Finep repassou R$ 41,3 milhões em parcela única para a Akaer, empresa líder do consórcio, com histórico sólido no setor aeroespacial. Na hora da prestação de contas, porém, só R$ 16,7 milhões foram devidamente comprovados. O restante? Nada. Nenhuma explicação detalhada, nenhuma transparência, nenhuma justificativa que sustentasse a aplicação do dinheiro público. O que se seguiu foi o roteiro esperado: auditoria, bloqueio de contas bancárias, rescisão contratual, exigência de devolução integral e abertura de Tomada de Contas Especial com TCU e CGU provavelmente batendo à porta.
Mas o problema vai muito além dos R$ 41 milhões perdidos. O verdadeiro estrago é estratégico e estrutural.
Hoje, o Brasil segue refém de lançadores estrangeiros para colocar satélites em órbita. Cada lançamento custa caro, depende de agendas internacionais e limita nossa autonomia em áreas críticas como defesa, telecomunicações e monitoramento ambiental. O Montenegro MKI era a resposta para isso. Era a promessa de que poderíamos desenvolver nossa própria capacidade de lançamento, criar uma cadeia produtiva nacional no setor aeroespacial e formar mão de obra altamente qualificada. Tudo isso foi jogado no lixo.
As startups parceiras do consórcio denunciaram atrasos sistemáticos nos repasses financeiros desde o início do projeto. Engenheiros foram demitidos. Equipamentos ficaram parados. O ecossistema de inovação espacial, que já é frágil no Brasil, levou mais um golpe mortal na credibilidade. Quem vai querer investir ou participar de novos projetos público-privados depois de ver esse desastre?
A Akaer, confrontada, recorreu ao argumento de sempre: sigilo por "segurança nacional" e alegações genéricas de atuação ética. Mas o fato concreto é que a empresa centralizou a gestão financeira do consórcio, repassou pouco ou nada para os parceiros menores e não conseguiu ou não quis comprovar onde foi parar quase 60% do dinheiro recebido.
Isso não é apenas "irregularidade técnica" ou "problema de gestão". É o retrato perfeito do risco moral que assombra o fomento público brasileiro: repasses volumosos feitos de uma vez, fiscalização frouxa durante a execução, prestação de contas exigida tarde demais. O incentivo perverso está montado: quem recebe o dinheiro tem pouquíssimo controle no meio do caminho e pode, na prática, fazer o que quiser até chegar a hora da auditoria quando o estrago já está feito.
E quem paga por isso? O contribuinte brasileiro, é claro. Paga duas vezes: primeiro com o dinheiro que evapora, depois com a oportunidade perdida. Porque enquanto o Montenegro MKI afundava em prestações de contas falsas, outros países avançavam. A Índia lançou dezenas de satélites com tecnologia própria. A Coreia do Sul desenvolveu seu lançador nacional. Até a Argentina mantém programas espaciais ativos e funcionais. E nós? Nós assistimos R$ 41 milhões virarem fumaça e nosso sonho espacial ser adiado por mais uma década.
O caso Montenegro MKI não é exceção. É a regra. É o padrão brasileiro em projetos estratégicos: ambição grande no discurso, execução medíocre na prática, fiscalização inexistente no processo, prestação de contas falha no final. O ciclo se repete em infraestrutura, em tecnologia, em defesa, em ciência. E o resultado é sempre o mesmo: fracasso anunciado, dinheiro perdido, oportunidade enterrada.
Se o Brasil quiser algum dia ter soberania espacial de verdade, vai precisar de muito mais do que boas intenções e discursos empolgados. Vai precisar de controle rigoroso sobre cada real investido, de fiscalização em tempo real, de consequências duras para quem desviar ou desperdiçar recursos públicos. Vai precisar parar de aceitar que projetos estratégicos nacionais virem terra de ninguém, onde dinheiro público entra e ninguém sabe ao certo onde sai.
Enquanto isso não acontecer, o Montenegro MKI será apenas mais um entre tantos foguetes brasileiros que nunca saíram do chão. Não por falta de capacidade técnica, mas por algo muito mais grave: por falta de seriedade na gestão do que é de todos.
