O próximo salto do Brasil passa pela construção de multinacionais brasileiras de tecnologia
O Brasil é um dos maiores mercados de tecnologia do mundo. Em 2025, o mercado brasileiro de TI movimentou cerca de US$ 67,8 bilhões, com crescimento de 18,5%.
Os números mostram a dimensão da oportunidade. Mas também levantam uma questão estratégica:
Quanto desse valor estamos conseguindo transformar em propriedade intelectual, empresas globais, empregos qualificados, capacidade de investimento e riqueza que permanece no Brasil?
Não basta sermos grandes consumidores de tecnologia.
Precisamos também ser criadores, proprietários e exportadores de tecnologia.
O Brasil já mostrou que sabe construir grandes empresas de tecnologia
Não estamos começando do zero.
O país construiu empresas relevantes como TOTVS, Stefanini, CI&T, Positivo Tecnologia, Senior Sistemas, Intelbras, Locaweb, Sankhya, Matera e MV, entre outras.
São companhias que desenvolveram produtos, conhecimento, propriedade intelectual e capacidade de competir em mercados cada vez mais sofisticados.
E a importância dessas empresas vai muito além de faturamento.
Quando uma empresa brasileira de tecnologia cresce, ela ajuda a criar um ecossistema ao seu redor.
Ela gera:
💰 capital e investimentos circulando na economia brasileira;
🧠 conhecimento, tecnologia e propriedade intelectual desenvolvidos no país;
👩💻 empregos altamente qualificados;
🌎 exportação de software, serviços e inovação;
🏭 ganhos de produtividade para indústria, agronegócio, mineração, comércio e serviços;
🔐 maior autonomia, segurança e soberania digital.
Existe ainda um efeito multiplicador importante.
Grandes empresas de tecnologia formam profissionais, compram startups, financiam pesquisa, desenvolvem fornecedores, criam novos empreendedores e permitem que conhecimento acumulado seja reinvestido no próprio ecossistema.
Por isso, construir empresas brasileiras de tecnologia em escala global não é apenas uma agenda empresarial.
É uma agenda de desenvolvimento econômico.
Criar startups é importante. Criar gigantes tecnológicos é ainda mais difícil.
O Brasil desenvolveu nas últimas décadas um ecossistema de startups muito mais sofisticado. Isso é uma conquista. Mas existe uma segunda etapa que precisamos discutir.
Como transformar boas startups brasileiras em grandes empresas globais brasileiras?
Ao longo dos anos, o país criou negócios extraordinários que acabaram adquiridos por grupos estrangeiros.
Buscapé → Naspers
99 → Didi
Sinqia → Evertec
Conductor → Visa
Essas operações podem gerar excelentes resultados para fundadores, investidores e funcionários. Aquisições fazem parte de qualquer mercado de capitais saudável e são fundamentais para o funcionamento do ecossistema de inovação.
Portanto, o problema não é vender empresas.
A questão estratégica é outra:
Quantas empresas brasileiras estamos conseguindo construir para ocupar também o outro lado da mesa o lado de quem compra?
Precisamos criar companhias capazes não apenas de serem adquiridas, mas de realizar aquisições internacionais, consolidar mercados, investir bilhões em pesquisa e desenvolvimento e disputar liderança tecnológica global.
Esse é um estágio diferente de maturidade econômica.
Capital estrangeiro não é o problema
Defender empresas brasileiras não significa defender uma economia fechada.
Muito pelo contrário.
O Brasil precisa continuar atraindo empresas e investimentos internacionais.
Microsoft, Amazon, Google, Nvidia, Oracle, Huawei e inúmeras outras multinacionais podem contribuir com capital, infraestrutura, pesquisa, empregos, fornecedores e transferência de conhecimento.
Uma economia moderna precisa estar conectada às principais cadeias globais de tecnologia.
A questão não deve ser:
“Empresas brasileiras ou empresas estrangeiras?”
A pergunta correta é:
“Como ter as duas?”
Precisamos de multinacionais estrangeiras investindo no Brasil.
E precisamos de multinacionais brasileiras investindo no mundo.
Esse equilíbrio é fundamental.
Precisamos criar empresas que tenham condições de continuar brasileiras
Imagine uma startup criada em Catalão, Goiânia, Recife, Florianópolis, Belo Horizonte, São Paulo ou qualquer outra cidade brasileira.
- Ela desenvolve uma tecnologia excepcional.
- Conquista clientes.
- Recebe investimentos.
- Expande internacionalmente.
- Fatura centenas de milhões.
- Depois bilhões.
- Compra concorrentes.
- Abre centros de pesquisa em outros países.
- Contrata milhares de engenheiros.
E continua tendo no Brasil seu centro estratégico de decisão, desenvolvimento tecnológico e geração de propriedade intelectual.
Por que esse caminho ainda é tão difícil?
Essa deveria ser uma das perguntas centrais da política econômica e tecnológica brasileira.
Não basta criar condições para uma startup nascer.
Precisamos criar condições para ela chegar aos R$ 100 milhões, R$ 1 bilhão, R$ 10 bilhões e além, sem que a venda para uma companhia estrangeira seja praticamente o único caminho racional para seus fundadores e investidores realizarem valor.
Isso exige mercado de capitais profundo, financiamento de longo prazo, segurança jurídica, formação de talentos, infraestrutura, internacionalização e capacidade de financiar pesquisa e desenvolvimento.
A próxima disputa econômica será tecnológica
As maiores economias do mundo compreenderam algo fundamental:
Tecnologia deixou de ser apenas um setor da economia.
Ela se tornou infraestrutura para praticamente todos os outros setores.
Inteligência artificial transforma bancos, hospitais, fábricas e escritórios.
Cloud sustenta empresas inteiras.
Semicondutores estão presentes em carros, máquinas, equipamentos médicos, telecomunicações e sistemas de defesa.
Cibersegurança protege governos, empresas e infraestruturas críticas.
Robótica redefine a indústria.
Data centers tornaram-se infraestrutura estratégica da economia digital.
Software controla uma parcela cada vez maior da produção mundial.
Por isso, o Brasil precisa construir competências estratégicas em áreas como:
inteligência artificial, cloud computing, cibersegurança, semicondutores, software, robótica, data centers, automação e indústria 4.0.
Não precisamos necessariamente dominar integralmente todas as etapas de todas essas cadeias.
Nenhum país faz tudo sozinho.
Mas precisamos identificar os segmentos nos quais o Brasil pode desenvolver vantagens competitivas, construir propriedade intelectual e ocupar posições relevantes nas cadeias globais de valor.
Soberania tecnológica não significa isolamento
Existe uma diferença importante entre autossuficiência e soberania.
Autossuficiência seria tentar produzir tudo internamente.
Em uma economia globalizada e tecnologicamente complexa, isso seria extremamente difícil e, em muitos casos, economicamente ineficiente.
Soberania tecnológica significa outra coisa.
Significa possuir capacidade de escolha.
Ter empresas, profissionais, infraestrutura, conhecimento e propriedade intelectual suficientes para que decisões estratégicas do país não dependam exclusivamente de tecnologias controladas no exterior.
Um país soberano tecnologicamente pode comprar tecnologia estrangeira.
Pode receber multinacionais.
Pode estabelecer parcerias internacionais.
Pode integrar cadeias globais.
Mas também possui capacidade própria para desenvolver alternativas, negociar em melhores condições e decidir onde quer concentrar suas competências estratégicas.
Soberania tecnológica não é fechar o mercado. É aumentar o número de escolhas disponíveis.
O próximo salto: de país de startups para país de multinacionais tecnológicas
Durante muitos anos, celebramos o crescimento do número de startups brasileiras.
Devemos continuar celebrando.
Mas talvez seja hora de elevar nossa ambição.
A próxima pergunta não deveria ser apenas:
“Como criar mais startups?”
Deveria ser:
“Como criar as próximas grandes multinacionais brasileiras de tecnologia?”
Empresas capazes de faturar bilhões de dólares.
Investir bilhões em P&D.
Registrar patentes.
Atrair os melhores engenheiros.
Comprar startups brasileiras e estrangeiras.
Abrir centros tecnológicos em diferentes continentes.
Exportar software, inteligência artificial e conhecimento.
Competir globalmente.
E manter no Brasil uma parte relevante da propriedade intelectual, do capital, dos talentos e do poder de decisão.
O Brasil precisa ocupar os dois lados da mesa
Precisamos continuar atraindo capital estrangeiro. Precisamos continuar recebendo multinacionais. Precisamos continuar conectados às principais empresas e centros tecnológicos do mundo. Mas precisamos também construir nossas próprias campeãs globais.
Queremos startups brasileiras sendo adquiridas por multinacionais? Sim.
Mas precisamos também de empresas brasileiras adquirindo startups nos Estados Unidos, Europa, Ásia e América Latina.
Queremos data centers de empresas internacionais no Brasil? Sim.
Mas também precisamos construir empresas brasileiras capazes de operar infraestrutura digital globalmente.
Queremos utilizar as melhores tecnologias de inteligência artificial do mundo? Sim.
Mas precisamos igualmente desenvolver modelos, aplicações, plataformas, infraestrutura e propriedade intelectual brasileira em IA.
Não se trata de substituir integração global por nacionalismo econômico.
Trata-se de garantir que o Brasil participe da economia tecnológica mundial não apenas como mercado consumidor, mas também como proprietário, produtor, investidor e exportador de tecnologia.
Tecnologia também é poder
No século XX, poder econômico estava profundamente associado à indústria, energia, infraestrutura e recursos naturais.
Tudo isso continua importante.
Mas, no século XXI, existe uma nova camada estratégica:
tecnologia.
Quem controla software, inteligência artificial, semicondutores, dados, infraestrutura digital e propriedade intelectual possui uma parcela crescente do poder econômico mundial.
O Brasil tem mercado.
Tem universidades.
Tem empreendedores.
Tem uma indústria relevante.
Tem um dos maiores sistemas financeiros digitais do mundo.
Tem agronegócio, energia, mineração e uma economia suficientemente grande para funcionar como plataforma de escala.
O desafio agora é transformar esses ativos em empresas tecnológicas brasileiras capazes de competir globalmente.
Porque o próximo salto do Brasil não deveria ser apenas criar mais startups.
Deveria ser criar empresas brasileiras grandes o suficiente para comprar outras empresas, financiar pesquisa de fronteira, desenvolver propriedade intelectual, conquistar mercados internacionais e exportar conhecimento para o mundo.
Não precisamos escolher entre capital brasileiro e estrangeiro.
Precisamos construir um país suficientemente competitivo para atrair o capital internacional — e suficientemente forte para gerar o seu próprio capital tecnológico.
Porque soberania tecnológica não significa produzir tudo sozinho.
Significa ter tecnologia, conhecimento, empresas e capacidade de decisão suficientes para escolher o próprio futuro.