A Amazônia deixou de ser apenas objeto de estudo e passou a ocupar o centro das decisões sobre inovação, ciência e desenvolvimento sustentável. Essa foi a principal mensagem do 2º Fórum Brasileiro de Deep Techs, realizado em Santarém (PA) (5 de Agosto), reunindo pesquisadores, empreendedores, investidores, gestores públicos e representantes da indústria para discutir como transformar conhecimento científico e biodiversidade em negócios inovadores capazes de gerar desenvolvimento para a região.
Ao longo de um dia de debates, ficou evidente que a Amazônia possui talentos, pesquisa de qualidade e oportunidades únicas. O desafio agora é criar as condições necessárias para que essas soluções avancem do laboratório para o mercado.A Amazônia como protagonista da inovação
A abertura do evento contou com a participação de Ana Cláudia, coordenadora do programa Jornada Amazônia e assessora de Transição Climática do Governo do Pará. Em sua trajetória acadêmica e profissional, Ana vivenciou um cenário recorrente: a Amazônia frequentemente era debatida em fóruns nacionais e internacionais sem a presença efetiva de quem vive e produz conhecimento na região.
Essa percepção motivou a construção de iniciativas voltadas para fortalecer o protagonismo amazônico em temas relacionados ao clima, desenvolvimento sustentável e inovação.
O programa Jornada Amazônia atua em quatro eixos estratégicos:
- Sustentabilidade;
- Formação e retenção de talentos;
- Ciência e tecnologia;
- Patrimônio genético e conhecimentos tradicionais.
Um dos exemplos destacados foi a criação da batedeira de açaí desenvolvida por comunidades locais, demonstrando como tecnologias sociais podem gerar impacto econômico e social sem concentrar benefícios em poucos atores.
Quando a pesquisa vira empresa
Todos os casos apresentados possuem uma característica em comum: nasceram dentro da academia e encontraram caminhos para gerar valor econômico a partir da biodiversidade amazônica.
Autris: inovação na saúde íntima feminina - A fisioterapeuta pélvica e pesquisadora Daniely Leal, fundadora da Autris, apresentou o desenvolvimento do primeiro sabonete íntimo funcional do Brasil produzido a partir de uma bactéria bioidêntica extraída de resíduos do cacau.
A tecnologia foi desenvolvida durante seu doutorado e avançou para o mercado por meio de parcerias estratégicas com o SENAI e apoio da EMBRAPII.
BioStrepto: transformando resíduos em oportunidades - O empreendedor Guilherme Araújo, fundador da BioStrepto, mostrou como a manipueira resíduo tóxico proveniente da produção de farinha de mandioca pode ser convertida em um surfactante biodegradável para a indústria cosmética.
O projeto enfrentou desafios típicos da região, incluindo a ausência de infraestrutura industrial adequada, obrigando a realização de testes em São Paulo e a terceirização de parte da produção em Goiás.
Os gargalos que ainda limitam a inovação amazônica
Apesar dos avanços, os participantes foram unânimes ao reconhecer que transformar ciência em negócio na Amazônia ainda exige superar desafios estruturais importantes.
Em painel mediado por Cybele Ozório, da Wylinka, representantes da academia, setor privado e poder público discutiram os principais obstáculos enfrentados pelos empreendedores amazônicos.
Entre os desafios destacados estão:
- Alto custo logístico;
- Falta de infraestrutura de processamento local;
- Dificuldades na negociação de propriedade intelectual;
- Escassez de ambientes tecnológicos para testes e validação;
- Baixa disponibilidade de estruturas para elevar tecnologias aos níveis de maturidade exigidos pelo mercado.
Segundo representantes da Natura, muitas soluções precisam atingir níveis de maturidade tecnológica (TRLs 6 a 8) para serem incorporadas por grandes empresas, mas a infraestrutura necessária para essa evolução ainda é limitada na região.
Por outro lado, a universidade vem ampliando sua visão sobre empreendedorismo tecnológico. Para Nei Oliveira, da UFOPA, é fundamental aproximar a pesquisa científica dos problemas concretos da sociedade, criando novas possibilidades de carreira para mestres e doutores além da academia.
Santarém e o papel do poder público na inovação
Representando a Prefeitura de Santarém, Daniel Nunes destacou os desafios institucionais para absorver tecnologias desenvolvidas localmente e transformá-las em soluções públicas.
Como resposta, o município vem estruturando iniciativas voltadas para o fortalecimento do ecossistema de inovação, incluindo a construção de um Plano Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação, além da identificação de demandas estratégicas que possam gerar oportunidades para startups e deep techs.
Entre as áreas prioritárias apontadas está o saneamento básico, considerado um dos setores com maior potencial para aplicação de soluções tecnológicas desenvolvidas na própria região.
Recursos existem: o desafio é acessar
O encerramento do Fórum foi dedicado às oportunidades de financiamento disponíveis para startups amazônicas.
A mensagem foi clara: há recursos disponíveis, mas o acesso ainda é um dos principais gargalos para os empreendedores da região.
FINEP anuncia R$ 50 milhões para startups da Amazônia
Representando a FINEP, Kallil Maia apresentou os mecanismos de apoio à inovação oferecidos pela instituição:
- Subvenção econômica (recursos não reembolsáveis);
- Fundos de investimento;
- Crédito subsidiado para inovação.
O destaque foi a chamada Pró-Amazônia Empreende, que reservou R$ 50 milhões para apoiar startups inovadoras da região.
Os projetos selecionados poderão receber entre R$ 200 mil e R$ 3 milhões, com inscrições abertas até dezembro de 2026.
Sebrae apresenta caminhos para novos empreendedores
O Sebrae-PA apresentou dois programas voltados para negócios de bioeconomia:
Inova Amazônia
- Voltado para pesquisadores e empreendedores em estágio inicial;
- Oferece capacitação, mentorias e apoio à estruturação do negócio.
BioEmpreende
- Direcionado para empresas já formalizadas;
- Focado no fortalecimento e crescimento de negócios da bioeconomia.
A discussão reforçou uma questão central para o desenvolvimento regional: como ampliar o acesso dos empreendedores amazônicos aos recursos já disponíveis para inovação?
O que Santarém mostrou ao Brasil
O Fórum Brasileiro de Deep Techs em Santarém demonstrou que a Amazônia possui todos os elementos necessários para liderar uma nova economia baseada em conhecimento, ciência e biodiversidade.
Existem pesquisadores produzindo soluções inovadoras, empreendedores criando negócios de impacto e instituições dispostas a apoiar esse movimento.
No entanto, ainda é necessário avançar em infraestrutura tecnológica, processamento local, financiamento e articulação entre universidades, empresas e governos.
Mais do que um evento, o Fórum evidenciou que a inovação amazônica já está acontecendo. O próximo desafio é criar as condições para que essas iniciativas ganhem escala, gerem riqueza local e consolidem a região como uma referência global em bioeconomia e deep techs.
A floresta em pé, cada vez mais, deixa de ser apenas um patrimônio ambiental para se tornar também uma fonte de ciência, tecnologia e desenvolvimento sustentável.

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