Existe uma narrativa bem estabelecida sobre o que significa empreender em tecnologia. Ela começa com uma ideia, passa por validação, MVP, primeiros clientes, tração e culmina em um pitch deck bem diagramado apresentado para investidores. Quem segue esse roteiro sente que está fazendo a coisa certa. E aí está o problema.
Cumprir etapas não é o mesmo que construir um negócio. Nunca foi.
O que se vê com frequência nos ecossistemas de inovação são empreendedores extremamente bem treinados para falar sobre suas startups e muito pouco preparados para decidir sobre elas. Sabem nomear as fases da jornada, dominam o vocabulário do venture capital, apresentam métricas com desenvoltura mas hesitam diante das perguntas que realmente importam: por que esse problema? Por que agora? Por que nós?
Essa confusão não é acidental. Ela é, em parte, produto dos próprios programas que foram criados para apoiar empreendedores. Modelos de pré-incubação estruturados em semanas surgiram com um propósito legítimo: criar linguagem comum, desenvolver repertório, despertar mentalidade empreendedora. Para esse objetivo, funcionaram bem. Ainda funcionam. O erro foi quando esses mesmos modelos passaram a ser aplicados para contextos completamente diferentes, como se duração fosse sinônimo de profundidade e processo fosse sinônimo de resultado.
O contexto mudou. Os recursos que um empreendedor tem disponíveis tempo, atenção, energia, dinheiro são cada vez mais escassos e cada vez mais disputados. Nesse cenário, cada semana perdida em dinâmicas que não geram clareza decisória é uma semana que não volta. E muitos programas ainda operam como se o calendário fosse um ativo, não um custo.
A questão central não é quanto tempo um empreendedor passa dentro de um programa. É quantas decisões relevantes ele consegue tomar com mais qualidade por causa desse tempo. Decisões como: qual problema vale meu próximo ano de vida? Quais premissas do meu modelo de negócio ainda não foram testadas no mundo real? O time que tenho é o time que esse momento exige? Faz sentido continuar, ajustar ou parar?
Essa última pergunta é a mais difícil e a mais raramente feita dentro de ambientes de inovação. Existe uma pressão silenciosa para seguir em frente, para pivotar em vez de encerrar, para "resistir" como se persistência fosse sempre virtude. Mas às vezes a decisão mais inteligente que um empreendedor pode tomar é encerrar um projeto antes que ele consuma mais do que pode entregar. E um ecossistema maduro deveria conseguir dizer isso com clareza, sem transformar a saída em fracasso.
Negócios são construídos em decisões, não em apresentações. A diferença entre uma startup que vai a algum lugar e uma que fica girando em torno do próprio processo está, quase sempre, na qualidade do julgamento de quem está no comando não na beleza dos slides, não no número de mentorias recebidas, não nos horas dentro de uma sala de coworking.
Isso não significa que programas de apoio não têm valor. Significa que o valor real de qualquer programa está na capacidade que ele tem de melhorar a tomada de decisão de quem participa. Se ao final de um ciclo o empreendedor sai com mais clareza sobre o que não sabe, com critérios mais sólidos para agir sob incerteza e com a honestidade de reconhecer o que funciona e o que não funciona no seu negócio o programa cumpriu seu papel.
Se ele sai apenas com um pitch mais polido, alguma coisa foi desperdiçada.
A maturidade de um ecossistema não se mede pelo número de startups que ele produz. Mede-se pela qualidade das decisões que os empreendedores dentro dele conseguem tomar. Inclusive e especialmente a decisão de parar quando parar é o caminho certo.
Startup é muito mais que um pitch. É uma sequência de apostas feitas com critério, ajustadas com honestidade e conduzidas com responsabilidade sobre o que está em jogo.
