O mundo da tecnologia tem um talento especial para transformar qualquer novidade em profecia. Desta vez, o nome do momento é Moltbot e se você ainda não ouviu falar, provavelmente não passou os últimos dias rolando o feed de algum guru de produtividade digital.
A ferramenta, que até pouco tempo atrás atendia pelo nome de Clawdbot (com "W", numa tentativa transparente de sugerir parentesco com o modelo Claude, da Anthropic), foi obrigada a mudar de identidade depois de um aviso jurídico bastante educado da empresa. No meio dessa confusão de rebranding, o fundador ainda cometeu o pecado de renomear a conta no GitHub e abrir espaço para golpistas de criptomoeda ocuparem o nome antigo. Não foi exatamente um começo glorioso.
Mas o que é o Moltbot, afinal? Em termos técnicos, ele é um agente de IA que vive no seu computador local e, diferente dos chatbots convencionais que perdem a memória a cada nova conversa, mantém continuidade através de arquivos salvos localmente. Ele pode navegar na internet, preencher formulários, mexer em arquivos, rodar comandos no terminal e se conectar a canais como WhatsApp, Telegram e Discord para receber ordens à distância. Para funcionar, precisa se acoplar a um modelo de linguagem externo Gemini, GPT, Claude que faz o trabalho pesado de raciocínio.
Na prática, ele age como um assistente que executa tarefas no seu computador enquanto você está em outro lugar. O diferencial teórico é real: automação local com memória persistente é uma proposta genuinamente interessante.
O problema está na distância entre o que é prometido e o que é entregue.
O primeiro sinal de alerta é o frenesi em torno do hardware. O marketing da ferramenta conseguiu criar uma demanda artificial pelo Mac Mini M4, convencendo usuários de que 16 núcleos de neural engine são indispensáveis para rodar o que, na prática, funcionaria bem em qualquer máquina modesta ou em um servidor simples na nuvem. Hardware que costumava acumular poeira nas prateleiras da Apple virou objeto de desejo, com uma pitada de FOMO bem temperada.
Há também o problema do consumo absurdo de tokens. Usuários relatam que o bot pode devorar mais de 30 mil tokens em poucas interações rotineiras o equivalente a esgotar cotas semanais de assinaturas premium em questão de horas. Para quem pensou estar economizando tempo, o resultado é uma conta crescente e um orçamento que sangra em silêncio.
A segurança é o ponto mais delicado. Por ter acesso profundo ao sistema operacional arquivos, terminal, senhas o Moltbot é vulnerável a ataques de injeção de prompt, onde comandos maliciosos embutidos em páginas ou documentos podem fazer o agente executar ações que o usuário jamais autorizaria conscientemente. Dar esse nível de acesso a uma ferramenta ainda em fase experimental é, no mínimo, uma aposta arriscada.
Isso não significa que a ideia por trás do Moltbot seja ruim. A capacidade de conectar automações via WhatsApp e Telegram, gerenciar CRMs e executar tarefas recorrentes tem valor real para quem trabalha com operações digitais. O problema é que o produto ainda está imaturo demais para o hype que carrega.
Para quem precisa de automação hoje, sem esperar a ferramenta amadurecer, existem caminhos mais estáveis. Extensões de navegador de IAs consolidadas já resolvem boa parte das demandas de extração de dados e organização de informações sem exigir permissões críticas no sistema. Ferramentas de low-code como o N8N cobrem fluxos de trabalho complexos com muito mais controle e previsibilidade. E para desenvolvimento ágil de interfaces, soluções como o Lovable entregam resultados sem a instabilidade de scripts experimentais.
A lição que o fenômeno Moltbot deixa não é sobre a ferramenta em si, mas sobre como o mercado de tecnologia ainda é extraordinariamente bom em vender fumaça perfumada. A corrida pelo hardware caro, o consumo descontrolado de tokens e as vulnerabilidades de segurança são sintomas de um ciclo que se repete: a novidade chega, o hype explode, os early adopters pagam caro pelo privilégio de encontrar os bugs, e só depois o produto eventualmente fica bom ou some.
Se você quer experimentar o Moltbot, faça isso em ambiente controlado, sem liberar acesso a dados sensíveis, e com expectativas calibradas. O futuro dos agentes de IA locais é promissor. Mas esse futuro ainda está sendo construído, e a versão atual cobra um preço financeiro e de segurança que poucos estão calculando antes de comprar.
No mundo da tecnologia, ceticismo saudável não é pessimismo. É só bom senso.
