Uma portaria recente do CNPq acaba de fechar as portas da iniciação científica para milhares de estudantes brasileiros. O motivo? Eles estudam a distância.
A Portaria CNPq 2539/25, publicada em 17 de janeiro, proíbe a concessão de bolsas de Iniciação Científica a estudantes matriculados em cursos EaD. A medida representa uma mudança radical de critérios: o que importa agora não é mais a qualidade do projeto, o potencial do pesquisador ou a relevância científica da proposta, mas simplesmente a presença física do estudante no campus.
O que realmente deveria importar
Tradicionalmente, a iniciação científica no Brasil sempre se baseou em pilares claros e objetivos: a qualidade do projeto de pesquisa, a capacidade do estudante, a qualificação do orientador e o potencial de contribuição científica. Esses critérios fazem sentido porque avaliam o que realmente importa: a ciência que será produzida.
A educação a distância, por sua vez, não é uma modalidade de segunda categoria. Ela é reconhecida em lei pelo artigo 80 da LDB e regulada por decretos e atos ministeriais. Ao excluir estudantes de cursos EaD, independentemente da qualidade de suas propostas, a portaria substitui critérios técnicos por arbitrariedade e ignora o princípio constitucional da isonomia.
A ciência nunca dependeu de paredes
A história da ciência está repleta de exemplos que desmentem a ideia de que grandes descobertas só acontecem dentro de campus universitários.
Michael Faraday, de origem humilde e autodidata, desenvolveu seus primeiros experimentos em espaços improvisados. Gregor Mendel conduziu os famosos experimentos que fundaram a genética no jardim de um mosteiro, longe de qualquer grande universidade. Isaac Newton, durante o fechamento de Cambridge por causa da peste bubônica, refugiou-se na fazenda da família e lá desenvolveu as bases do cálculo, os princípios da gravitação e da ótica. Charles Darwin passou décadas trabalhando em sua casa em Down House, onde escreveu "A Origem das Espécies".
E tudo isso aconteceu em uma época sem computadores, sem internet, sem videoconferências.
O paradoxo da ciência digital
Vivemos hoje a era mais colaborativa da história científica. Grupos de pesquisa multinacionais trabalham juntos sem nunca se encontrarem fisicamente. Artigos são produzidos de forma colaborativa em ambientes virtuais. Dados são compartilhados instantaneamente entre pesquisadores em continentes diferentes.
A ciência já é digital. A pesquisa já é em rede. Os dados já circulam online.
Mas, paradoxalmente, a política pública brasileira ignora essa realidade e insiste em critérios presenciais como se estivéssemos no século passado.
O custo da exclusão
A iniciação científica deveria ser um instrumento de descoberta de talentos, não de exclusão. Quando deixamos de avaliar o mérito do projeto e passamos a julgar apenas o formato de oferta do curso, estamos desperdiçando potenciais cientistas por puro formalismo.
Quantos Faradays, Mendels e Darwins brasileiros estão sendo impedidos de contribuir para a ciência do país simplesmente porque escolheram estudar a distância? Quantas descobertas importantes deixarão de acontecer porque o critério de seleção virou a localização geográfica em vez da qualidade intelectual?
Para onde caminhamos?
A ciência não mora em prédios. Ela mora em pessoas. Ela nasce de curiosidade, método, orientação e oportunidade. Se o futuro da pesquisa brasileira depender da presença física em campus universitários, estaremos construindo muros em vez de pontes.
E isso não é política científica. É retrocesso.
Num momento em que o Brasil precisa de mais ciência, mais pesquisa e mais inovação, escolher excluir estudantes competentes com base em onde eles estudam é uma decisão que custará caro ao nosso futuro. Porque no fim das contas, quando o cimento passa a valer mais que a mente, não é só a ciência que adoece: é o próprio país que renuncia ao seu potencial.
