Se você olhar para o gráfico (top 1.000 universidades mais inovadoras), uma coisa salta aos olhos: a inovação acadêmica global está altamente concentrada na Ásia e nos EUA.
Distribuição das universidades no Top 1.000 (inovação):
- China: 450
- Estados Unidos: 148
- Coreia do Sul: 71
- França: 43
- Alemanha: 40
- Japão: 36
- Reino Unido: 26
- Taiwan: 22
- Canadá: 17
- Austrália: 12
Esse tipo de ranking (como o Scimago 2025, conforme divulgado) costuma considerar indicadores como patentes, transferência de tecnologia e colaboração com empresas. Ou seja: não é só “publicar bem” é transformar conhecimento em produto, processo, empresa e competitividade industrial.
O caso chinês: universidade como motor de indústria
A China não aparece em primeiro por acaso. Instituições como Tsinghua e Zhejiang lideram a lista e são exemplos claros de um modelo em que:
- a pesquisa já nasce com trilha de aplicação,
- a relação com empresas é intensa e estrutural,
- a proteção e exploração de propriedade intelectual é parte do jogo,
- a universidade conversa diretamente com cadeias produtivas estratégicas.
Quer um sinal prático disso? A ascensão de players chineses em setores de alto impacto (como carros elétricos e seus ecossistemas de bateria, power electronics, manufatura e software) é, em grande medida, consequência de um sistema que faz a ponte entre laboratório e mercado com escala.
E o Brasil?
O ponto mais desconfortável: o Brasil não aparece no Top 1.000 (na referência mencionada). Mesmo com ilhas de excelência, seguimos com um gargalo recorrente:
produzimos conhecimento, mas temos enorme dificuldade em convertê-lo em inovação industrial.
Publicar papers é necessário mas não suficiente. Sem mecanismos consistentes de transferência, a pesquisa vira currículo, não vira produto.
O que precisa mudar (sem romantizar)
Se quisermos entrar “agressivamente” no jogo da inovação, o debate precisa sair do abstrato e ir para o operacional. Alguns caminhos objetivos:
1) Métricas e incentivos
- Valorizar patentes licenciadas, contratos com indústria, spin-offs, impacto econômico (sem abandonar qualidade acadêmica).
2) Transferência de tecnologia profissional
- NITs/ETTs com metas, governança, equipe técnica e capacidade real de negociação e licenciamento.
3) Parcerias estruturais com empresas
- Programas de P&D cofinanciados, laboratórios conjuntos, desafios industriais, doutorado industrial.
4) Ambiente para empreendedorismo científico
- Incubação, prova de conceito (PoC), acesso a capital, mentoria e “go-to-market” para pesquisadores.
5) Estratégia nacional por setores
- Prioridades claras (energia, agro, saúde, defesa, manufatura avançada, IA, semicondutores etc.) e compras públicas inteligentes.
Pergunta que fica
Se patentes, transferência e colaboração são os critérios, a pergunta não é “por que o Brasil não está no ranking?” e sim: o que estamos fazendo, hoje, para reduzir a distância entre universidade e indústria?