Os números não mentem. O Brasil encerrou 2024 como a 10ª maior economia do mundo, perdendo a 9ª posição para o Canadá. Mais alarmante ainda: fomos ultrapassados pela Rússia, um país mergulhado em uma guerra devastadora há quase três anos. Enquanto isso, nossos indicadores educacionais permanecem estagnados, nossa indústria encolhe e nosso ecossistema de inovação patina.
A pergunta que não quer calar é: como chegamos aqui?
A Realidade dos Números
Quando olhamos para os dados com frieza, o diagnóstico é preocupante:
Educação que não decola: No PISA 2022, mantivemos praticamente as mesmas notas de 2018 — 379 pontos em matemática (queda de 5 pontos), 410 em leitura e 403 em ciências. Enquanto países asiáticos avançam a passos largos, estamos estacionados há mais de uma década. Menos da metade dos nossos estudantes alcança o nível básico em matemática e ciências. Não se trata apenas de educação de qualidade — trata-se do futuro capital humano que o país terá disponível.
Inovação que recua: O Índice Global de Inovação de 2024 nos coloca na 50ª posição entre 133 países, uma queda em relação ao ano anterior. Mais preocupante, o índice de 2025 mostrou nova queda para a 52ª posição, perdendo até a liderança na América Latina para o Chile. Estamos caindo em criatividade, em patentes, em produção científica. Enquanto isso, a China subiu ao top 10 global e a Índia segue sua trajetória ascendente.
Indústria que mingua: A desindustrialização brasileira não é novidade, mas seus efeitos são cada vez mais visíveis. O desinteresse pelas engenharias não é apenas uma questão de vocação — é reflexo direto da falta de empregos qualificados e bem remunerados no setor industrial. Jovens talentosos preferem carreiras em serviços ou tecnologia porque simplesmente não veem futuro na indústria nacional.
O Custo da Escolha pelo Medíocre
A verdade inconveniente é que o Brasil não fez a lição de casa quando deveria. Enquanto países como Coreia do Sul, Singapura e até mesmo nosso vizinho Chile investiram pesadamente em educação, ciência e infraestrutura nas últimas décadas, nós optamos pelo caminho mais fácil: crescimento baseado em commodities e consumo interno.
O resultado? Estamos presos em uma armadilha de renda média. Crescemos quando o vento está a favor (preço de commodities alto, liquidez internacional), mas não construímos as bases para um crescimento sustentável e de longo prazo.
Compare com nossos pares do BRICS: A Índia, com todos os seus desafios, mantém uma trajetória de crescimento robusto e está construindo uma economia cada vez mais diversificada e tecnológica. Se tivéssemos feito nosso dever de casa, não há razão para não estarmos disputando posições entre as 5 maiores economias com eles.
Os Pilares que Negligenciamos
1. Educação de Qualidade
Não basta ter acesso à escola é preciso que essa escola prepare os jovens para o século XXI. Precisamos de investimento real, professores valorizados, currículos atualizados e foco em matemática, ciências e pensamento crítico.
2. Investimento em Inovação
Nossos gastos em P&D estacionaram em torno de 1,2% do PIB há anos. Países desenvolvidos investem o dobro ou triplo disso. Sem pesquisa, não há inovação. Sem inovação, não há competitividade.
3. Infraestrutura de Qualidade
Não dá para competir globalmente com portos ineficientes, logística cara e internet lenta em vastas regiões do país. Infraestrutura não é luxo é pré-requisito para desenvolvimento.
4. Ambiente de Negócios
Burocracia sufocante, insegurança jurídica e carga tributária complexa afastam investimentos e engessam o empreendedorismo. O Brasil está na 115ª posição em estabilidade política para fazer negócios, segundo o Índice Global de Inovação.
O Que Poderia Ser Diferente
Se tivéssemos investido seriamente em educação nos últimos 20 anos, hoje teríamos uma geração de profissionais altamente qualificados impulsionando nossa economia. Se tivéssemos criado um ecossistema robusto de inovação, nossas empresas estariam competindo em setores de alta tecnologia globalmente. Se tivéssemos construído infraestrutura de classe mundial, nossas exportações seriam mais competitivas e diversificadas.
O Chile, com uma população 10 vezes menor, nos ultrapassou em inovação. A Coreia do Sul, que tinha renda per capita inferior à nossa nos anos 1960, hoje é referência global em tecnologia e inovação.
Não é falta de potencial. É falta de foco, de planejamento de longo prazo e de execução.
Um Chamado à Ação
Para líderes empresariais, gestores públicos e profissionais que querem fazer a diferença:
- Invista em pessoas: Capital humano é o ativo mais valioso. Empresas que investem em capacitação hoje colherão resultados amanhã.
- Apoie a inovação: Seja patrocinando pesquisa, contratando startups ou criando ambientes que estimulem a criatividade.
- Cobre políticas públicas sérias: Não é hora de mais do mesmo. Precisamos de reformas estruturais que priorizem educação, ciência e infraestrutura.
- Pense em legado: As decisões que tomamos hoje definirão se nossos filhos viverão em um Brasil próspero ou em um país que perdeu o bonde da história.
O Brasil caiu para a 10ª posição e pode continuar caindo se não mudarmos de rota. A boa notícia é que não é tarde demais. Temos recursos, temos talento e temos um mercado interno robusto. O que falta é vontade política, visão de longo prazo e execução impecável.
Países não se desenvolvem por acaso. Desenvolvimento é resultado de escolhas conscientes, investimentos estratégicos e trabalho árduo ao longo de décadas.
A pergunta que fica é: estamos dispostos a fazer essas escolhas?
